terça-feira, 11 de novembro de 2014

ENFIM SÃO PAULO PERDE A PRESSA

e Geraldo Alckmin empurra para amanhã o que devia ter feito anteontem

Raul Longo

Coisa irritante que era aquela musiquinha tocando em todos os radinhos de pilha do final da década de 60 no meio de minhas sonolentas manhãs de adolescência ginasiana à noite e office-boy desde as 7 horas da manhã: “Vão ‘bora! Vão ‘bora! Tá na hora! Vão ‘bora!”

Aquilo se repetia na minha cabeça e desde então comecei a renegar a cidade onde nasci e onde a pressa atropelava meus desejos e minhas vontades. Mais tarde atropelou meus versos, meus amores e, por fim, “Tá há hora, vão ‘bora!” e fui mesmo antes que me atropelassem as botas da ditadura militar.

Que alívio quando cheguei à Bahia e as pessoas caminhavam normalmente, absorvendo as belezas do mar, da cidade, do sol, do céu e das demais pessoas, todos tranquilamente baianos. Ninguém marchando apressado em busca de nada. Sem cada um atropelar aos outros ou a si mesmo.

“São Paulo nunca mais!” – pensei eu, mas, claro, vez por outra tive de voltar àquela cidade. Inclusive ainda há pouco tempo, coisa de mais de um ano, quando por ali ainda havia água de verdade nas torneiras e ninguém se sentia inundado de sede e sujeira. Ainda assim, fosse qual fosse a higiene dos paulistas, continuavam me incomodando com aquela pressa insana para tudo, aquele massacrar cotidiano em pontos de ônibus e plataformas de Metrô, aquele buzinar em avenidas invariavelmente imobilizadas pela própria pressa que congestiona a todos que quererem avançar ao mesmo tempo.

Nem sei se o rádio ainda toca o “Vão ‘bora! Vão ‘bora! Tá hora! Vão ‘bora!” que, se não me falha a memória, era a vinheta musical do jornal radiofônico da Bandeirantes. A mesma BAND da TV que ligada ali, agora, nesta manhã de 11 de novembro de 2014, me traz a notícia de que finalmente o governador Geraldo Alckmin e a Presidenta Dilma sentaram-se para conversar sobre medidas para evitar as agruras dos paulistas pela falta de água devido à ausência de chuvas.

Reproduziram aquela fala da Presidenta Dilma que antes já informara que desde o início de 2014 ofereceu verbas federais para a solução do problema, mas o governo daquele estado preferiu o caminho das licitações.

Elegante, Dona Dilma não explicou porque o governador de São Paulo preferiu o caminho mais longo e lento, mas para quem conhece os interesses envolvidos em licitações como as do Metrô daquele mesmo governo e estado, não se fazem necessárias maiores explicações. Perfeitamente compreensível!

Já os técnicos e especialistas da ONU em abastecimentos de água às populações mundiais, afirmaram e reiteraram que não tem isso de estiagem. Consequência de incompetência governamental, mesmo! De fato, Los Angeles e outras cidades dos Estados Unidos estão ao lado de desertos e se por causa de um ano de estiagem ficar sem água como no estado de São Paulo, aquele povo derruba governos, prefeitos, senadores e até o Obama.

Em São Paulo reelegeram o Alckmin, mas quando pela BAND NEWS, ali ao lado, ouço Geraldo Alckmin afirmar aos jornalistas que a verba agora requerida à Presidente Dilma não é para obras que solucionem amanhã o problema de ontem, pois as obras de amanhã estariam sendo realizadas por sua própria providência, juro que me tornei fã do político de Pindamonhangaba. E também lembrei de outro dito dos paulistanos apressadinhos: “Quero isso pronto antes de terminar de dizer Pindamonhangaba!

Para conseguir tamanha pachorra daquele povo, só mesmo um pindamonhangabaense! Nem baianos teriam paciência com tantas aliterações e os próprios nativos reduzem para “pindenses”, mas o gentílico correto para o Alckmin é esse palavrão e não aqueles que proferem os paulistas ao escoar do barro pelas torneiras.

Fico imaginando uma nova versão nas rádios pelas manhãs paulistanas: “Com calma! Com calma! Não tá hora! Com calma!” Hora do banho pra paulista só depois de amanhã, quando o governador resolver o problema da água que evaporou dos reservatórios desde muito antes de anteontem.

Maravilha! Enfim, a locomotiva do Brasil virou um reboque emperrado!
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