sexta-feira, 27 de março de 2015

Corrupção e Politicagem Pesada

Tradução De: Vila Vudu

Corrupção e Politicagem Pesada

18/3/2015, George Monbiot – http://www.monbiot.com/2015/03/18/hard-graft/ (Trad. Emex, que nos ajuda do Canadá)

A Grã-Bretanha não é corrupta? Só não será, se se adotar a mais ridícula e estreita definição de “corrupção”.

Quase todos os dias, jornais e televisões ingleses estão repletos de histórias que me cheiram a corrupção. Mas, no ranking de corrupção da ONG “Transparência Internacional”, a Grã-Bretanha ocupa o 14º lugar entre 177 nações (1) – classificação que sugere que ela seria uma das mais bem governadas nações da Terra.
A conta não fecha. Ou todos os 13 países ainda mais corruptos que a Grã-Bretanha são espetacularmente corruptos, ou há algo errado com esse ranking da “Transparência Internacional”.

É analisar um pouco, e logo que se vê que, sim, o problema é o critério para classificar os países, o chamado ranking com que essa ONG opera, e que se serve de definições de “corrupção” as mais estreitas e seletivas. Nas nações ricas, práticas corriqueiras que poderiam sem violência ser expostas como práticas corruptas, são simplesmente desconsideradas; as mesmas práticas corriqueiras, em países pobres, são dramática e teatralmente enfatizadas.

Esta semana, foi publicado um livro deveras inovador: editado por David Whyte, o livro leva o título de
How Corrupt Is Britain?(2) [Quão Corrupta é a Grã-Bretanha?]. É obra que deve ser lida por todos que concordem que a Grã-Bretanha merece(ria) a posição em que aparece no ranking de “Transparência Internacional”.

Será que algum setor comercial bancário sobreviveria ainda na Grã-Bretanha, não fossem as práticas muito corruptas dos bancos, ou que envolvem bancos, ou que seriam impossíveis sem os bancos? Pense na lista dos escândalos: pensões subfaturadas, fraudes hipotecárias, o golpe do seguro de proteção de pagamento, o golpe da manipulação da taxa interbancária Libor, as operações com informações privilegiadas e tantos outros mais. Depois, pergunte a si mesmo: espoliar pessoas está sendo definido como aberração, ou apenas como  ‘modelo de negócios’?

Nenhum dirigente de banco foi indiciado, sequer desqualificado ou demitido por práticas que contribuíram para desencadear a crise financeira: a legislação que os teria coibido ou enquadrado em crimes já havia sido paulatinamente esvaziada, antes, por sucessivos governos.

Um ex-ministro do atual governo dirigia o banco HSBC (2), quando este se lançou à prática sistemática dos crimes de evasão fiscal (3), lavagem de dinheiro do narcotráfico e a garantir serviços a bancos da Arábia Saudita e de Bangladesh ligados ao financiamento de terroristas (4). Em vez de processar o banco, o diretor da Controladoria Fiscal do Reino Unido passou a trabalhar para aquele mesmo banco, tão logo se aposentou (5).

Operando com o apoio dos territórios britânicos de além-mar e postos avançados da Coroa, Londres é líder mundial dos paraísos fiscais, controlando 24% de todos os serviços financeiros (6) lá oferecidos.

A cidade oferece ao capital mundial um sofisticado regime de sigilo, dando assistência não apenas a sonegadores de impostos, mas também a contrabandistas, fugitivos de sanções e lavadores de dinheiro. Como disse a juíza de instrução francesa Eva Joly, queixando-se, a City “nunca forneceu sequer uma ínfima evidência útil a qualquer magistrado estrangeiro” (7).

Reino Unido, Suíça, Singapura, Luxemburgo e Alemanha estão todos entre os países menos corruptos na lista de Transparência Internacional. Mas também figuram na lista da Rede de Justiça Fiscal (Tax Justice Network) como administradores dos piores regimes sigilosos de investimento e paraísos fiscais (8). Por alguma estranha razão, nada disso é levado em conta para definir o ranking da ONG Transparência Internacional!

A Iniciativa de Financiamento Privado (Private Finance Initiative) tem sido usada por sucessivos governos britânicos para iludir os cidadãos quanto à extensão dos empréstimos que canalizaram dinheiro público para corporações privadas. Envolta em segredo, recheada de propinas ocultas (9), a IFP tem fisgado hospitais e escolas sempre com dívidas impagáveis; ao mesmo tempo, a mesma IFP impede o controle público sobre inúmeros serviços públicos.

Espiões de estado lançam-se à vigilância (10) em massa, ao mesmo tempo em que a Polícia trabalha servindo-se de identidades de crianças mortas, mente em tribunais para fornecer provas falsas e incita crianças ao ativismo extremista, além de infiltrar-se em grupos pacíficos, tentando destruí-los (11). As forças policiais já mentiram sobre o desastre de Hillsborough (12); já protegeram pedófilos ativos (13), inclusive Jimmy Savile e, como hoje se afirma, toda uma gama de dirigentes políticos suspeitos também do assassinato de crianças. Savile foi protegido também pelo Serviço Nacional de Saúde (National Health Service) e pela BBC – que demitiu a maioria dos que tentaram expô-lo (14) e promoveu os que tentaram perpetuar o encobrimento.

Há o problema de nosso intocado sistema de financiamento de políticos, que permite a compra dos partidos (15) pelos mais ricos. Há o escândalo das escutas telefônicas e dos jornais que subornam policiais; da privatização dos Correios britânicos, o Royal Mail (16), vendido a preços insignificantes; o esquema da “porta giratória”, que permite que empresários e empregados de grandes empresas, depois de eleitos, estejam em posição que lhes permite redigir leis que defendem os seus próprios interesses ou dos respectivos patrões empresários; o assalto à seguridade social e aos serviços prisionais, por empresas privadas terceirizadas; a fixação do preço da energia por empresas; o roubo diário perpetrado por empresas farmacêuticas, e tantas dúzias de casos semelhantes. Nada disso é corrupção? Ou essas são operações consideradas ‘sofisticadas’ demais para serem expostas sob o seu verdadeiro nome, “corrupção”?

Confiar no Banco Mundial para aferir corrupção, é como confiar em Vlad, o Empalador, para aferir direitos humanos
Entre as fontes usadas por Transparência Internacional para produzir seu ranking estão o Banco Mundial e o Fórum Econômico Mundial.

Confiar no Banco Mundial para aferir corrupção, é como confiar em Vlad, o Empalador, para aferir direitos humanos. Orientado pelo princípio um dólar\um voto, controlado pelas nações ricas e atuando nas nações pobres, o Banco Mundial financiou centenas de elefantes brancos que enriqueceram enormemente as elites mais corruptas e beneficiaram capitais estrangeiros (17), ao mesmo tempo em que expulsava pessoas das próprias terras e deixava o país afogado em dívidas impagáveis.

Para espanto geral, a definição do Banco Mundial para a corrupção é tão limitada, que não considera esse tipo de prática.

E o Fórum Econômico Mundial estabelece sua escala de corrupção a partir de uma pesquisa que consulta executivos mundiais (18), precisamente eles, cujas empresas são beneficiárias diretas do tipo de práticas que estou listando nesse artigo. As perguntas se limitam ao pagamento de propinas e à aquisição corrupta de fundos públicos por interesses privados (19), excluindo o tipo de corrupção que prevalece nas nações ricas.

Quando entrevista cidadãos comuns, as entrevistas de Transparência Internacional seguem a mesma linha: a maior parte das perguntas específicas concerne ao pagamento de propinas (20).

[A corrupção que cobra propinas é a única modalidade de corrupção na qual empresas e empresários privados são obrigados a pagar. Em todas as demais modalidades de corrupção, empresas e empresários privados ficam com todo o produto do roubo para si.

Por isso, precisamente, todo o alarido metido a ‘ético’ das investigações de corrupção, que chega ao grande público pelos veículos da mídia-empresa, expõe só, exclusivamente, um lado da corrupção (os servidores públicos corruptos ou apenas acusados de corrupção, sem que jamais se prove coisa alguma), e muito cuidadosamente esconde o outro (as empresas e empresários privados corruptores, os quais, não por acaso, são grandes anunciantes dos mesmos veículos da mídia-empresa metida a ‘ética’ (NTs)].

Para o autor do livro Quão corrupta é a Grã-Bretanha?, essas concepções do que seja “corrupção” são parte de uma longa tradição de retratar o fenômeno como ‘desgraça’ que só acometeria nações frágeis, as quais teriam de ser ‘resgatadas’  por “reformas” impostas por poderes coloniais e, mais recentemente, por organismos como o Banco Mundial e  o FMI.

“Reforma” para essas entidades é sinônimo de arrocho [chamado de ‘austeridade’], privatização, terceirização e desregulamentação.  Com suas “reformas”, aquelas entidades sugam dinheiro diretamente das mãos dos pobres, para entregá-lo a oligarcas nacionais e mundiais.

Para organizações como o Banco Mundial e o Fórum Econômico Mundial, há pouca diferença entre o interesse público e os interesses das corporações internacionais. O que seria visto como corrupção, a partir qualquer outra perspectiva, é apresentado por eles como ‘economia saudável’.

O poder financeiro mundial e a imensa riqueza da elite global estão fundados na corrupção. Os beneficiários têm interesse, evidentemente, em operar com definições de “corrupção” que os ‘resgata’ e preserva.

Sim, muitas nações pobres sofrem o flagelo do tipo de corrupção em que funcionários públicos aceitam propinas. Mas os problemas que afligem a Grã-Bretanha são mais profundos, porque quando o sistema já é dominado pela elite, propinas são detalhe pouco importante, são supérfluas. *****
NOTAS
1. https://www.transparency.org/cpi2014/results   
6. John Christensen, 2015, in David Whyte (ed). How Corrupt is Britain? Pluto Press, London.
7. Nicholas Shaxson, 2011. Treasure Islands: Tax Havens and the Men Who Stole the World. Random House, London. http://treasureislands.org/
12. Sheila Coleman, 2015, in David Whyte (ed). How Corrupt is Britain? Pluto Press, London.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A CRISE ETICO-POLITICA

A CRISE ETICO-POLITICA

Jacques Távora Alfonsin

As/os brasileiras/os estão vivendo, nessas últimas semanas, uma expectativa cheia de ansiedade relacionada com o indiciamento de pessoas do mundo político e empresarial na operação lava-jato, pela prática de ilícitos que só se tem ideia de quais sejam, pelo menos por enquanto, por versões relacionadas com delações premiadas.

Há um clima apaixonado de discussão e de injúrias recíprocas presente em ásperos diálogos trocados nas redes sociais. No estado atual da investigação, porém, agora que o Supremo Tribunal Federal já recebeu os inquéritos da Polícia Federal, e a possibilidade de investigação sobre responsabilidades por possíveis ilícitos praticados por agentes políticos se reconhece possível, parece mais importante examinar-se a qualidade da água já disponível para a limpeza institucional pretendida pela Operação Lava-jato.

Se ela for composta rigorosamente de acordo com o princípio constitucional da moralidade, por exemplo, pressuporá comportamento ético conhecido de tantas quantas forem as pessoas legalmente legitimadas para instruir o processo onde as provas serão produzidas. Isso, pelo menos no referente à CPMI já instalada no Congresso Nacional, deveria excluir a possibilidade de qualquer das/os suas/seus integrantes, direta ou indiretamente indiciadas/os, dela participarem. Seria absurda a hipótese de alguém, suspeito de estar incurso em ilícitos penais ou cíveis, dentre outros os do art.55, parágrafo 1º da Constituição Federal, ser juiz dos seus próprios atos. Essa é uma disposição constitucional em que o direito e a moral estão claramente juntos. Independentemente de outras penas, a perda do mandato de deputado e senador pode se dar, conforme o parágrafo primeiro desse artigo 55:

“É incompatível com o decoro parlamentar, além dos casos definidos no regimento interno, o abuso das prerrogativas asseguradas a membro do Congresso Nacional ou a percepção de vantagens indevidas.”

O Presidente do Senado e o da Câmara, então, também indiciados pela Polícia Federal, pelo grau de poder decisório de que são titulares e em virtude desse princípio ético, deveriam eles próprios tomar a iniciativa de se afastar das suas funções, quando menos durante a tramitação do processo aberto pela CPMI, garantida assim a impossibilidade de se levantar qualquer suspeita de sua interferência nos trabalhos. Como se sabe, isso pode-se dar até por simples influência ou afinidade partidária. Que confiem, pois, como outras/os indiciadas/os, na disposição do art. 5º, inciso LVII da mesma Constituição: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.”

Se esses pressupostos de lisura ético-jurídica não se concretizarem, já virá poluída a água da Lava-jato. Com preconceitos, pré-julgamentos, raiva, a nunca ausente paixão partidária e ideológica, a chicana na manipulação das provas, os bastidores de conchavos em casos tais, ela não será capaz de alcançar os seus objetivos. Ocultar-se o fato de que a corrupção política, se aconteceu ou não conforme as delações premiadas, não são patrocinadas só pela Petrobras, é igualmente uma atitude suspeita.

Concentrado o alvo das críticas públicas, fundadas ou não, numa empresa pública como a Petrobrás, procura-se relegar ao esquecimento históricas ilegalidades e imoralidades perpetradas no passado por grandes grupos empresarias. Por isso, sob o mesmo fundamento do art. 5º, inciso LVII da Constituição Federal acima lembrado, há um movimento nacional diversificado procurando demonstrar como as normas jurídicas podem, sim, dar sustentação forte à ética política. Não são poucas as vozes, por exemplo, que, na defesa da tão sonhada reforma política, pretendem garantir legalmente a exclusão das doações privadas das empresas privadas aos partidos e aos candidatos.

Dá prova disso a intensa troca de mensagens dos movimentos populares, via-internet, pedindo “Devolve Gilmar”, dirigidas ao ministro Gilmar Mendes, do STF, para ele devolver ao plenário, com o seu voto, o processo que julga ação proposta pela OAB nacional, já contando com a maioria dos votos desse mesmo plenário, pretendendo exatamente isso: a proibição desse tipo de “pressão política antecipada” do poder econômico sobre o poder político, num toma lá da cá tão conhecido e praticado quanto vergonhoso.

Tem-se argumentado contrariamente a tal proibição, que a publicidade obrigatória das doações de empresas constituiriam garantia de barreira contrária à “caixa dois”. Com o devido respeito a essa opinião, isso equivale a defender a hipótese de que a publicidade de todo o ato lícito impede a ilicitude contrária, coisa que a história do direito e a própria moral desmentem de forma indubitável.

As razões pelas quais se desencadeou o caso Petrobrás, assim, servem para se ampliar o espectro investigativo das causas pelas quais isso acontece bem como das responsabilidades públicas e privadas capazes de provocar crises políticas dessa dimensão. Dois estudos podem nos ajudar, tanto para identificar tais causas quanto para nos prevenir e atacar os seus indesejados efeitos. O que se revela mais preocupante neles é o quanto a própria democracia corre risco quando se deixa tomar por opiniões que, alegadamente, constituem a sua melhor defesa.

Um professor espanhol de Direito Administrativo, Jaime Rodríguez Arana publicou “Ética institucional. Mercado “versus” Función Pública” (Madri: Dykinson, 1996), um estudo no qual procura responder a uma pergunta extraordinariamente atual para a realidade brasileira. Em tradução livre para o português, ali se pode ler:

“O que aconteceu para que hoje tenha mudado tanto a percepção que a generalidade dos cidadãos tem – ou temos – dos políticos? A causa não é difícil de adivinhar posto que, hoje em dia, a essência supra-individual de comunidade da organização política se diluiu em favor do interesse pessoal. Por isso, a atuação dos poderes públicos se explica em função de limitações que se produzem na vida dos cidadãos.” (…) “… vai-se perdendo a ideia de serviço público e, nesse defeito, tem surgido com não pouca força, uma nova e perigosa dimensão de aproveitamento pessoal, de interesse pessoal, que também se instalou na função pública em sentido amplo.” Com base em Jean Daniel,então diretor do semanário francês *“Le nouvel Observateur”*, lembra o professor Jaime: *“A democracia, regime que convida ao vício, está condenada à virtude, se não quiser desaparecer”.*

Se essa lição for comparada com a do conhecido professor e defensor dos direitos humanos Fabio Konder Comparato em “Ética. Direito, moral e religião no mundo moderno” (São Paulo: Companhia das letras, 2006), conclui-se como esse “interesse pessoal”, inspirado hoje no neoliberalismo, procura dominar o Estado, como um meio seguro de garantir e reproduzir a segurança indispensável aos interesses do capital, indiferentes ao custo social que cobram.

Analisando a última obra de Friedrich Hayek, famoso defensor da mais ampla liberdade dos mercados, salienta o professor Comparato, em chave de leitura capaz de nos convencer, hoje, não só sobre as causas subjacentes à crise porque passa o governo da República e a Petrobrás, mas também sobre os riscos inerentes à “governabilidade” e os que corre a empresa de ser privatizada:

“Tratava-se,na verdade, do que se veio depois a denominar neoliberalismo. O que se sustentou e propagou a partir dos anos 70 do século passado, com o êxito que todos sabem, foi que os gastos públicos com saúde, educação, previdência e assistência social são um processo altamente irracional, sob o aspecto da coerência administrativa e da estabilidade fiscal. O argumento foi astucioso: em lugar de se dizer que o aumento dos gastos públicos com  olíticas sociais solapa o capitalismo, alardeou-se que tais despesas, pelos seus efeitos inflacionários, constituem uma séria ameaça ao regime democrático. Essa ameaça constituiria em que o Estado Social carece intrinsecamente de “governabilidade”: os governos não contariam com os recursos financeiros indispensáveis para fazer atuar os serviços públicos básicos. Em suma: o atendimento dos direitos econômicos e sociais dos cidadãos conduziria o Estado à falência. Como bem demonstrou no Brasil um dos grandes teóricos do desenvolvimento nacional (Celso Furtado), essa acusação dos ideólogos neoliberais representou, na verdade, o estratagema típico do caluniador: o adversário é acusado de cometer exatamente o mesmo delito que o acusador se prepara para praticar ou já pratica. Os países da periferia do mundo capitalista – e até mesmo algumas grandes potências – foram constrangidos, para manter acesso ao mercado global, a deixar praticamente de operar políticas monetárias ou fiscais, além de se desfazerem de empresas estatais estratégicas (a chamada política de privatização). Ou seja, os países mais pobres e débeis viram-se condenados a não mais realizar políticas macroeconômicas, pelo abandono dos instrumentos indispensáveis para tanto. Doravante o mercado incumbir-se-ia de tudo.”

O caso Petrobras, portanto, envolve muito mais do que aparenta. Esse clamor escandalizado de grande parte do povo, muito ampliado pelas versões antecipadas dos fatos considerados criminosos, por uma parte da mídia interessada em desmoralizar a atividade política e seus agentes, poupando corruptores, abre oportunidade para o governo da República e a Petrobrás serem acusados “de cometer exatamente o mesmo delito que o acusador se prepara para praticar ou já pratica” como diz o professor Comparato: ser obrigado a abandonar suas políticas sociais, “deixar praticamente de operar políticas monetárias ou fiscais, além de se desfazer de empresas estatais estratégicas”, como é a Petrobrás.

O povo brasileiro não merece isso, tenha a atual crise ético-político o fim que tiver.

Crise é "forjada, mentirosa e induzida pela mídia"

Crise é "forjada, mentirosa e induzida pela mídia", diz Leonardo Boff. Teólogo afirma que veículos de comunicação são golpistas e contra o povo, mas com os movimentos sociais emergiu uma nova consciência política e o outro lado ficou sem condições de dar o golpe.


Leonardo Boff conclamou a ocupar as ruas contra o ódio e em defesa do Brasil A crise econômica e política pela qual o país atravessa neste momento é "em grande parte forjada, mentirosa, induzida, ela não corresponde aos fatos", afirma o teólogo Leonardo Boff. Segundo o teólogo, a crise amplificada por uma dramatização da mídia. "Essa dramatização que se faz aqui, é feita pela mídia conservadora, golpista, que nunca respeitou um governo popular. Devemos dizer os nomes: é o jornal O Globo, a TV Globo, a Folha de S. Paulo, o Estadão, a perversa e mentirosa revista Veja."

Em entrevista à Rádio Brasil Atual na segunda-feira (9), o teólogo disse que, no entanto, o atual nível de acirramento no cenário político não preocupa porque, para ele, comparado a outros contextos históricos, a "democracia amadureceu". Ele diz acreditar, ainda, na emergência de uma "nova consciência política".

Boff também considera que o cenário brasileiro é bastante diferente da Grécia, Espanha e Portugal, onde são registrados centenas de suicídios, por conta do fechamento de pequenas empresas e do desemprego, e até mesmo de países centrais, como os Estados Unidos, que veem a desigualdade social avançar.

"A situação não é igual a 64, nem igual a 54", compara. "Agora, nós temos uma rede imensa de movimentos sociais organizados. A democracia ainda não é totalmente plena porque há muita injustiça e falta de representatividade, mas o outro lado não tem condições de dar um golpe."

Para Boff, não interessa ao militares uma nova empreitada golpista. Restaria ao campo conservador a "judicialização da política", e acrescenta: "Tem que passar pelo parlamento e os movimentos sociais, seguramente, vão encher as ruas e vão querer manter esse governo que foi legitimamente eleito. Eles têm força de dobrar o Parlamento, dissuadir os golpistas e botá-los para correr."

Sobre o 'panelaço' ocorrido no domingo, durante o discurso da presidenta Dilma Rousseff para o Dia Internacional da Mulher, Boff afirma que o protesto é "totalmente desmoralizado", pois "é feito por aqueles que têm as panelas cheias e são contra um governo que faz políticas para encher as panelas vazias do povo pobre".

O teólogo afirma que a manifestação expressa "indignação e ódio contra os pobres" e são símbolo da "falta de solidariedade"; e que o "panelaço veio exatamente dos mais ricos, daqueles que são mais beneficiados pelo sistema e que não toleram que haja uma diminuição da desigualdade e que gostariam que o povo ficasse lá embaixo".

Sobre o ato programado pela CUT e movimentos sociais para sexta-feira (13), Leonardo Boff diz que a importância é reafirmar os valores democráticos e a defesa da soberania do país: "Aqueles que perderam, as minorias que foram vencidas, cujo projeto neo liberal foi rejeitado pelo povo, até hoje, não aceitam a derrota. Eles que tenham a elegância e o respeito de aceitar o jogo democrático".

O teólogo frisa, mais uma vez, não temer o golpe. "É o golpe virtual, que eles fazem pelas redes sociais e pela mídia, inventando e fantasiando, projetando cenários dramáticos, que são projeções daqueles que estão frustrados e não aceitam a derrota do projeto que era antipovo."

terça-feira, 3 de março de 2015

Drones - criados para serem predadores. Tecnologia a serviço da morte.

Dronês: O Léxico da drone-língua (de Bugsplat a Targeted killing)8/2/2013, Daniel Schwartz, CBC, Canadáhttp://www.cbc.ca/news/world/drone-speak-lexicon-from-bugsplat-to-targeted-killing-1.1342966



Entrelido na Vila Vudu:

(1) Do
Dicionário Cambridge # Bugsplat not found
(2) Bug splat [lit. inseto esmagado] is the official term used by US authorities when humans are killed by drone missiles
(2a) Inseto esmagado [ing. bugsplat] é o termo oficial usado pelas autoridades norte-americanas, quando humanos são mortos em ataque por armas disparadas à distância [drones]


John Brennan, que Obama pôs na CIA, defende a política dos drones

Drones. [lit. Zangão. O zumbido do zangão (?)] A palavra tem lá seus fãs (sobretudo na imprensa dita ‘de notícias’) e lá seus detratores (incluindo o subsecretário geral da ONU para preservação da paz). O mesmo se diz dos usos dos drones  para matar gente.

Mas quando se começa a examinar o termo e suas muitas variações, o dronês,
a drone-língua dos drones, parece que existe mais para encobrir e obscurecer do que para iluminar e esclarecer.

Nem chega a ser propriamente surpresa em tempos em que expressões como “entrega extraordinária” [
ing. dronês = “extraordinary rendition” (essa já está dicionarizada no
Cambridge Dictionary = sequestro de prisioneiros e entrega em outros países, para serem torturados, nos casos em que tortura seja crime no país dos sequestradores)] e “interrogatório reforçado [ing. dronês “enhanced interrogation” (tortura)] são agora parte do vocabulário político.

Aqui vai um pequeno glossário, para ajudá-los a compreender o debate sobre os
drones.

Veículo Aéreo Não Tripulado [ing. Unmanned aerial vehicle, UAV] é como os militares preferem chamar os drones. “Veículo Aéreo Não Tripulado de Combate” é usado para caracterizar os drones que usam armas disparadas à distância. [É claro que o veículo é tripulado; é tripulado à distância, com um joystick, como em videogames. Mas o nome é “Não Tripulado”, só para vê-sengana-os-trôxa (NTs)]

Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA, os militares norte-americanos têm hoje [em 2013] cerca de 7.500 drones, dos quais cerca de 375 são armados. Na ONU, que criticou programas de drone , até a palavra já está proibida.

Essa semana, por exemplo, o subsecretário-geral para operações de manutenção da paz, Herve Ladsous, ao ser perguntado se a ONU tem planos para usar drones na vigilância na República Democrática do Congo, respondeu: “Eu não usaria nem a palavra drones.” Explicou aos repórteres que ele, pessoalmente, prefere “veículos aéreos não tripulados”.

O PREDADOR [Predator]: Drone fabricado pela General Atomics, em uso desde 1995, tem alguns modelos armados desde o início de 2001. O nome sugere que o alvo não seja humano, mera presa de um predador qualquer – como observou John Sifton da ONG Human Rights Watch. Também se lê a palavra “predador” nas páginas policiais, aplicada a assassinos seriais.

LEGENDA: MQ-9 Reaper da Força Aérea dos EUA, veículo aéreo não tripulado, prepara-se para decolar da pista militar de Wheeler-Sack no Forte Drum, N.Y. dia 18/10/2011
(Staff Sgt. Ricky Best/USAF/Reuters)

Orwell e a drone-língua
Em 1946, muito antes de a maioria dessas palavras e frases começarem a ser usadas, George Orwell escreveu que “o discurso político falado e escrito quase sempre existe para fazer a defesa do indefensável” e que “tem de vir sempre cheio de eufemismos, de platitudes, de nada-com-coisa-alguma e da mais nebulosa vagueza.”

Orwell escreveu naquele ensaio “Política e a Língua Inglesa”, que a língua política “é prevista para fazer as mentiras soarem como verdades, o assassinato como ato respeitável, e para dar ao mais puro vento aparência de solidez” (George Orwell,
Política e a Língua Inglesa, 1946).

O CEIFADOR [Reaper]: Versão posterior, maior, do Predador, também construído pela General Atomics, em operação desde 2007.

Sifton observa que esse nome “é um ícone. Implica que os EUA seriam o próprio destino, a Morte em pessoa, ceifando a vida dos inimigos destinados a morrer.”

Míssil Fogo Infernal, o Hellfire missile: Drones Predadores e Ceifadores disparam mísseis Fogo Infernal AGM-114 Hellfire contra seus alvos. Sifton diz que o nome dos mísseis de mais de 1,5m de comprimento invoca “o castigo pós-morte, acrescentando à violência brutal um toque de punição bem merecida.”

Ninho de couro sintético para onde levamos nossas bonequinhas [nosso Naugahyde Barcalounger]: É como os pilotos [de joysticks] chamam as poltronas do cockpit onde sentam na sala do centro de comando de joysticks da Base Aérea de joysticks em Creech, Nevada, de onde pilotam os drones que voam sobre o Afeganistão e outros locais.

Quando os pilotos [de joysticks] em solo, dentro da estação de controle de onde disparam contra seus alvos, veem, numa das telas, que acertaram o alvo [ou qualquer coisa que se mova perto dos alvos], eles gritam “Splash!” [onomatopeia para “[qualquer coisa] esmagada”], segundo o Los Angeles Times.

Bugsplat: É o nome do software do Departamento de Defesa dos EUA para “calcular e reduzir dano colateral” (número de civis mortos) resultante dos ataques aéreos.

O programa Bugsplat foi usado pela primeira vez na guerra do Iraque em 2003. Naquele momento, oficiais disseram ao Washington Post que o programa “vai modelar com mais precisão o dano potencial gerado por dado tipo e tamanho de bomba lançada de dada aeronave que voe a dada altitude”. A CIA também usa esse software Inseto Esmagado.

Ataque vistado, ou ataque assinado (Signature strike) [É diferente de “personality strike”, quando os EUA planejam ataque para matar uma determinada pessoa]: É o termo em dronês dos EUA para ataque premeditado letal contra indivíduo cuja identidade pode até ser desconhecida, mas cujo jeitão enquadra-se num padrão que sugira à CIA ou a militares norte-americanos que aquele indivíduo esteja envolvido em atividades militantes ou terroristas.

Os primeiros ataques assinados para os quais se usaram drones aconteceram no Paquistão em 2008, assinados pelo presidente George W. Bush.

O número desses ataques vinha caindo no Paquistão desde 2010. Até que em 2012 o presidente Barack Obama assinou ataques assinados cometidos no Iêmen.

O New York Times noticia que a Casa Branca “contabiliza como combatentes todos os homens em idade de serviço militar visto em zona de ataque, segundo vários funcionários do governo.” A CIA usa também o termo “matança em praia lotada” (“crowd killing”) para designar ataques vistados ou assinados.

Matança de alvo definido [Targeted killing]: A expressão refere-se a assassinato premeditado de indivíduo determinado. Também conhecido como “execução extrajudicial”.

John Brennan, que o presidente Obama nomeou para dirigir a CIA foi o principal autor da estratégia de Obama para matança de alvo definido.

Dentre alvos definidos para matança estiveram Anwar al-Awlaki, cidadão norte-americano e propagandista da al-Qaeda, morto num ataque por drone no Iêmen em 2011. Outro alvo definido para matança por drone em 2009 foi Baitullah Mehsud, líder do Talibã no Paquistão e suspeito de ter sido responsável pelo assassinato da ex-primeira ministra Benazir Bhutto.

Mehsud escapara vivo de pelo menos 16 operações de matança [de alvo definido] em 14 meses, antes de ser morto; nessas operações morreram algo entre 280 e 410 pessoas, conforme estimativas da New America Foundation, think-tank de Washington.

Matriz de Disposição [“disposição”, no sentido em que se diz “disposição de lixo”, “disposição de detritos”, “disposição de esgotos”] (Disposition matrix): É o banco de dados supervisionado por Brennan, para potencializar os resultados de “listas de matar” [kill lists] separadas, mas que se superpõem” mantidas pela CIA e pelos militares. A matriz de disposição inclui “biografias, locações, amigos e conhecidos, além de organizações, aos quais o alvo do qual se disporá [como lixo] seja conectado”, além de “estratégias para derrubar alvos, incluindo pedidos de extradição, operações de captura e patrulhamento por drones,” segundo o Washington Post, primeiro veículo a publicar o nome do banco de dados.

Ameaças Iminentes [Imminent threats]: Na sabatina pela qual passou antes de assumir o comando da CIA, 5ª-feira passada, Brennan disse que o governo usa ataques com drones apenas para conter ameaças iminentes de terroristas contra os EUA. Para conseguir matar Mehsud no Paquistão, a estratégia teve de ser complementada para incluir soldados dos EUA.

O documento do Departamento de Justiça que vazou essa semana para a rede NBC News explica como a definição de “ameaça iminente” está sendo alargada: “Para que algum líder de operações apresente uma ‘iminente’ ameaça de ataque violento contra os EUA não se exige que os EUA tenham prova clara de que qualquer específico ataque contra pessoas ou interesses norte-americanos esteja para acontecer no futuro imediato.”

Jameel Jaffer, do Sindicato Norte-americano pelas Liberdades Civis disse à rede NBC News que a política de Obama reconhece “alguns limites à autoridade que ela mesma cria, mas os limites são definidos de modo vago e elástico. É fácil ver como podem ser manipulados.” *****

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tirem as patas da Petrobras!!!!

OTC 2015: recebemos pela 3ª vez maior prêmio da indústria de petróleo e gás

Este prêmio é o maior reconhecimento que uma empresa de petróleo pode receber na qualidade de operadora offshore
Em maio de 2015, em Houston (EUA), receberemos pela terceira vez o prêmio OTCDistinguished Achievement Award for Companies, Organizations, and Institutions em reconhecimento ao conjunto de tecnologias desenvolvidas para a produção da camada pré-sal. Esse prêmio é o maior reconhecimento que uma empresa de petróleo pode receber na qualidade de operadora offshore. Em 1992, recebemos o prêmio por conquistas técnicas notáveis relacionadas ao desenvolvimento de sistemas de produção em águas profundas relativas ao campo de Marlim e, em 2001, por avanços nas tecnologias e na economicidade de projetos de águas profundas, no desenvolvimento do campo de Roncador.
Em carta comunicando a premiação à Petrobras, o presidente da Offshore Technology Conference (OTC), Edward G. Stokes, destacou: “este prêmio é um reconhecimento das conquistas notáveis, significativas e únicas alcançadas pela Petrobras, e das grandes contribuições para a nossa indústria (óleo e gás offshore). O comitê de seleção (da OTC) ficou extremamente impressionado com esta nomeação. As conquistas que a Petrobras fez na perfuração e produção desses reservatórios desafiadores são de classe mundial. A indústria aprendeu muito a partir das informações compartilhadas pela Petrobras sobre o pré-sal nos artigos e sessões apresentados na OTC. Nós todos nos beneficiamos do seu sucesso.”
Produção no Pré-Sal 
O recente recorde de produção de óleo na camada pré-sal, de 713 mil barris diários de petróleo, obtido em 21/12/2014, demonstra a robustez das tecnologias aplicadas.



 
















Principais feitos tecnológicos do pré-sal 

1. Primeira Boia de Sustentação de Risers (BSR)
2. Primeiro riser rígido desacoplado e em catenária livre, chamado de Steel Catenary Riser (SRC)
3. Mais profundo Steel Lazy Wave Riser (SLWR)
4. Mais profundo riser flexível
5. Primeira aplicação de risers flexíveis com monitoramento integrado
6. Recorde de profundidade de lâmina d'água (2.103m)
Para perfuração de um poço submarino com a técnica de Pressurized Mud Cap Drilling (PMCD) com sonda de posicionamento dinâmico.
7. Primeiro uso intensivo de completação inteligente em águas ultraprofundas, em poços satélites
8. Primeira separação de CO2 associado ao gás natural em águas ultraprofundas - 2.220m - com injeção de CO2 em reservatórios de produção
9. Mais profundo poço submarino de injeção de gás com CO2 - 2.220m de lâmina d’água
10. Primeiro uso do método alternado de injeção de água e gás em água ultraprofunda - 2.200m

Grécia, os EUA e o golpe neoliberal

Vila Vudu...
Já somos todos gregos (em graus diferentes) 

Grécia, os EUA e o golpe neoliberal 

“Essa ‘conversão’ de dívidas privadas em dívidas públicas é ‘item’ que nunca falta nos ‘planos’ neoliberais.”

E onde tantos tanto falam de“políticas de austeridade”, deve-se dizer sempre “políticas de arrocho”: é o que são, arrocho; ‘austeridade’ é coisa muito diferente. [NTs]
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Desde os primeiros momentos da calamidade econômica que desabou sobre o ocidente em 2007, a resposta ‘oficial’ sempre foi apresentada como sucessos modestos, com alguns poucos erros políticos. A realidade é outra: o que se tem é uma elite distante e seus agentes dedicados a aplicar políticas punitivas sob o disfarce de limitações econômicas materiais. Nesse contexto, a eleição de Alexis Tsipras e da coalizão “Syriza” na Grécia parece ser uma virada radical à esquerda, enquanto as propostas econômicas realmente apresentadas e que estão sendo discutidas não passam de ideias de economia de manual de meio-de-percurso que precederam o golpe neoliberal dos anos 1970s nos EUA. E, embora o ministro Tsipras entenda muito mais dessa economia[1] e de estratégias de decisão econômica que os líderes da União Europeia e dos EUA, as alavancas do poder permanecem presas firmemente em mãos desses líderes que lideram para o desencaminhamento.

Dito de outro modo, o sofrimento econômico de tantos é gratuita, violenta predação econômica executada sob o falso pretexto de inexistentes pressões materiais. Como no caso da Argentina, no início dos anos 2000s, a Grécia tinha uma ‘cleptocracia’ nativa, ou ‘interna’, ligada numa aliança ‘externa’ a banqueiros internacionais, mediante mecanismos econômicos para promover o endividamento do país.

O governo dos EUA poderia, se quisesse, ter expulsado os fundos “cheios de vento”, para gerar empregos para os norte-americanos desempregados, mas escolheu não o fazer. No caso da Grécia, essa solução potencial é impossível, porque a Grécia é membro da União Europeia, sob condições que impedem esse procedimento. Foi em larga medida o que se viu no ‘alívio’ das hipotecas, com  os programas do Federal Reserve para comprar patrimônio nos EUA. Mas empréstimos subsequentes dos europeus aos gregos só ajudaram a reconstruir os cofres dos banqueiros europeus montados às costas do povo grego.

[Gráfico em
http://www.counterpunch.org/wp-content/dropzone/2015/01/uriegreece1.jpg]
Gráfico (1) acima: em dezembro, 2014, estima-se que haja mais de 6 milhões de trabalhadores potenciais nos EUA, gente que quer trabalhar mas desistiu de procurar por causa do mercado de trabalho completamente adverso. O Economic Policy Institute (EPI) comparou estimativas de crescimento do mercado de trabalho e o crescimento real, e descobriu esses 6 milhões de trabalhadores. Porque esse método já levava em conta os aposentados previstos e outros que se previa que deixassem o mercado de trabalho, resta a economia, para explicar o altíssimo número de desempregados. Como FDR mostrou com os programas de trabalho do New Deal nos anos 1930s, o governo dos EUA pode criar empregos para os norte-americanos, se desejasse fazê-lo. Muito semelhante ao que se constata no modo como a elite alemã vê o povo grego, a elite norte-americana também pressupõe que os desempregados estejam desempregados por falta de motivação e empenho para encontrar trabalho. Fonte: EPI.
A ascensão da coligação Syriza na Grécia é desenvolvimento bem-vindo, se o Sr. Tsipras e seu governo compreenderem bem contra o que estão lutando, e agirem adequadamente. Seja sincero ou apenas tático-eleitoral o compromisso de não se retirar da União Europeia, fato é que as regras da UE proíbem inúmeras ações na economia grega, mesmo que sejam de simples organização interna da economia nacional. Reorganização da economia grega, pôr rédeas na cleptocracia e fazer os cleptocratas pagarem, usando esse dinheiro para melhoramentos sociais, é ideia que colide cabeça com cabeça contra as políticas de exploração máxima que a troika vive de infligir à Grécia.

O que os liberais ocidentais chamam de ‘austeridade
[de fato, são políticas DE ARROCHO. “Austeridade”, traço típico de quem é “austero” é coisa completamente diferente do que dizem banqueiros, ‘especialistas’ de academia e ‘analistas’ na imprensa-empresa, metidos a entender de tuuuuuuuuudo. Mais um golpe ‘de narrativa’, no qual muita gente boa cai, sem nem perceber (NTs)], pode também ser interpretado pela experiência do último meio século de políticas de arrocho [sempre ditas ‘austeras’] que o Fundo Monetário Internacional, FMI, impôs em vários pontos do mundo, para assegurar que os bancos sejam pagos, não importa a catástrofe social que resulte do arrocho, digo, da ‘austeridade’.

Essa longa história serve como contexto às políticas infligidas à Grécia. O ‘modelo’ norte-americano na América do Sul e na América Central era/é para instalar no poder, nos vários países, déspotas ‘pró-business’, cleptocratas nativos apoiados pela CIA, para que saqueiem ‘por dentro’ os próprios países, ao mesmo tempo em que mantêm a boa ordem favorável aos interesses das empresas norte-americanas. Dito ‘esquerdista’, mas sempre eficaz ferramenta neoliberal, o presidente Carlos Menem levou a Argentina ao fundo do poço da 
crise argentina no início dos anos [ver também “Memoria del saqueo” (2004), filme de Fernando “Pino” Solanas (NTs)]. Por ordens do FMI, Menem implementou políticas de ‘austeridade’ que levaram ao colapso da economia argentina e, na sequência, levaram ao colapso também de dois governos argentinos. Só quando o povo argentino rebelou-se e recusou a ‘austeridade’ imposta pelo FMI é que foi possível arrancar a Argentina do fundo do poço.
No Brasil, o ‘intelectual’ e ‘progressista’ que se curvou a todas as imposições do FMI, mostrou a bunda aos oprimidos e quebrou o país três vezes, foi Fernando Henrique Cardoso – como se vê, com todas as letras [letras excessivas, demasiadas, de vomitar], em https://www.youtube.com/watch?v=t_W4kkhJndI [NTs].

Assim também, o FMI teve participação ativa em grande parte da ruína econômica do leste da Ásia e da Rússia nos anos 1990s, com políticas ditas de ‘desenvolvimento’ baseadas em dogmas neoliberais apoiados em políticas de ‘austeridade’ [de fato, são política DE ARROCHO, não de ‘austeridade’] – até que tudo deu errado, como daria 
inevitavelmente errado. 

Embora houvesse sem dúvida muitos verdadeiros crentes entre os banqueiros que promoveram então o programa neoliberal, assim como também os há no Banco Central Europeu hoje, as políticas que de fato estavam sendo implantadas eram projetos de banqueiros, que só interessavam a banqueiros, programas de repagamento que bancos aplicam a devedores delinquentes sem qualquer atenção às implicações nas políticas públicas. Equivale a dizer que as teorias econômicas apresentadas como de apoio às políticas do FMI quase sempre eram ‘teóricas’, e exigiam que os países deixassem de considerar vários séculos de história imperial; e nunca se basearam em exame racional dos ‘fatos’.

Na Argentina no início dos anos 2000s praticamente não havia qualquer dúvida sobre os interesses aos quais o FMI servia. A dívida ‘pública’ que o FMI exigia que fosse saldada era na origem dívida privada, que foi socializada, riscos bancários e empresariais em geral convertidos em ‘deveres’ e ‘dívidas’ e ‘obrigações’ que passaram a pesar sobre todo o povo argentino, não muito diferente dos trilhões em ‘valores’ e depósitos bancários que os governos de George W. Bush e Obama desviaram de agências do governo federal dos EUA para salvar Wall Street em 2008. Essa ‘conversão’ de dívidas privadas em dívidas públicas é ‘item’ que nunca falta nos ‘planos’ neoliberais.

E a ‘privatização’ de ‘bens’ gregos que agora a coligação Syriza repudia, foi o mecanismo usado para saquear a Argentina pela mesma cleptocracia internacional, como política chave do FMI.

Tudo isso para sugerir que os programas de arrocho que a troika quer aplicar à Grécia pouco têm a ver com economia teórica e tudo têm a ver com as ambições imperiais do ocidente. As políticas podem parecer ‘lógicas’, como teoria econômica, mas é ‘lógica’ que emergiu de vários séculos de prática imperial.

Outro modo de ver as questões é perguntar onde o banco central dos EUA, o Federal Reserve, descobriu os $4 trilhões para comprar ativos financeiros nos seus programas de “Alívio Quantitativo” [orig. QE (Quantitative Easing)]?

O dinheiro apareceu ‘do ar’, mediante algumas entradas digitais contra os bens comprados. O Banco Central Europeu também se serve desse ‘Fiat moeda’; fabrica dinheiro à vontade. Se falta dinheiro para fechar o balanço nos livros do Banco Central, qualquer valor nominal, tipo a moeda de um trilhão de dólares de cocô-de-gato proposta já há algum tempo nos EUA cairá perfeita, como vinda do céu. A questão é que o Banco Central Europeu pode resolver tecnicamente – embora politicamente não possa fazê-lo -- a dívida pública grega, com algumas simples entradas.

Mas o caso é que a troika está usando a dívida como porrete político e econômico contra a Grécia, mais ou menos como aconteceu na Argentina nos anos  2000s e está acontecendo atualmente no caso dos EUA. O ‘déficit’ de orçamento que está sendo usado para vender ‘austeridade’ [de fato, é ARROCHO] é pura ficção, foi inventado. Não é que a contabilidade não seja ‘real’; é que aquela contabilidade representa mal o modo como os gastos do governo são realmente financiados, e é apresentada de modo deformado, para atender a interesses de grupos políticos no poder.

Gráfico (2) acima: assim como fatos imperiais são expostos por economistas e cientistas políticos como disputas entre teorias, como ‘escolhas políticas boas’ versus ‘escolhas erradas’, também se expõe como se fosse ‘coincidência’ que políticas fiscais que beneficiariam as classes pobres e médias seriam ‘impossíveis’ por causa de limitações de orçamento... MAS o Fed ‘encontrar’ $4,5 trilhões de dólares para comprar papéis e beneficiar os mais ricos é possível!
        Em décadas recentes, os ganhos de capital pelo aumento do preço de venda de bens por cortesia do Fed encaminharam-se quase exclusivamente para os mais-mais ricos. A
troika agora está pondo os contribuintes alemães em guerra contra os gregos ‘maus-pagadores’. Mas a verdadeira linha de combate está demarcada, isso sim, entre os banqueiros aos quais o Banco Central Europeu serve e o povo grego. Fonte: Emmanuel Saez.

O ponto de aproximar as vítimas de uma Grande Depressão forjada na Grécia com o suplício dos argentinos no início dos anos 2000s e com a subclasse sempre crescente dos muito pobres nos EUA é fazer-ver que os problemas são sociais – luta de classes, não alguma função de limitações materiais.

Cada uma dessas circunstâncias representa uma luta por recursos sociais; as diferenças são de distribuição econômica, não são limitações ‘naturais’. Os banqueiros do Banco Central Europeu podem até acreditar realmente que políticas de “austeridade expansionista” permitiriam aos gregos pagar dívidas impagáveis. Mas ao implantar políticas que tem história longa como políticas de saque, aqueles banqueiros tropeçam nessa história à qual devem satisfações.

A capitulação serial da chamada ‘esquerda europeia’ a essas políticas neoimperialistas só faz sentido se os líderes desses partidos ditos ‘de esquerda’ veem-se, eles mesmos, como ‘insiders’ do lado do império.

A situação agora é clara: ou o Sr. Tsipras e Syriza livram-se de vez dessas ilusões liberais, ou arrastarão o povo grego, junto com eles, para o fundo da cova.

A onda racista mal disfarçada que vem do norte da Europa e apregoa que o problema da Grécia é efeito de um “caráter nacional” encontra sua irmã gêmea nas elites norte-americanas, que veem o problema econômico como resultado do crescimento do número de pobres nos EUA. O modelo de Mitt Romney, dos “fazedores versus roubadores” é sabedoria consagrada nos guetos de banqueiros e altos executivos de empresas em todos os EUA.

Começa agora um esforço para auditar a dívida grega e compreender como, para quê, com que objetivo o país endividou-se. Enquanto cortavam-se serviços sociais na Grécia, prosseguiam os negócios de compra e venda entre o governo grego e empresas alemãs e francesas fabricantes de armas, tudo pago com o suor do povo grego. Quando se auditou a dívida argentina, descobriu-se que 70% do ‘devido’ era dívida inventada, resultado de fraudes, dívida privada tomada por interesses privados e no interesse de empresas privadas, convertida em dívida pública para roubar o povo argentino.

As políticas econômicas forçadas contra a Grécia estão sendo impostas em diferentes graus por todo o ocidente. Os sistemas de educação pública nas grandes cidades como Chicago, Filadélfia e Detroit estão sendo sistematicamente saqueados por ideólogos neoliberais e ‘gerentes’ que trabalham a favor do próprio interesse. A ideia é promover a ‘eficiência’ econômica como se fosse eficiência operacional: o mínimo serviço prestado, pelo máximo lucro auferido. Cortam-se aposentadorias sob o pretexto de que faltariam fundos, quando impostos e taxas concebidos para manter aquelas aposentadorias são desviados ou cortados para criar ‘mercados’ de onde os mais ricos podem arrancar lucros. E o governo Obama deixou milhões de famílias roubadas nos empréstimos de hipotecas predatórias com dívidas maiores que o valor das próprias casas, enquanto os bancos que fizeram os empréstimos-assaltos são ‘resgatados’ e voltam a operar normalmente.

Na Grécia, o Sr. Tsipras continua até aqui a dizer as coisas certas.[2] E o que está dizendo só é ‘radical’ no contexto da virada em direção à direita mais reacionária pela qual passa o neoliberalismo nos últimos 40 anos.

As políticas econômicas impostas contra a Grécia são mais draconianas que o que se vê no núcleo de EUA e Europa, mas só no grau, não no tipo. Wall Street, que inclui grandes bancos alemães e franceses sempre usaram crises inventadas para intervir em golpes ‘soft’ pelo mundo, ao longo de décadas. A dívida é usada como arma. O povo grego tem batalha muito difícil a enfrentar. Mas o golpe neoliberal é internacional e internacionalista. Norte-americanos e europeus do norte que creiam que estejam do lado ‘vencedor’ apenas ainda conservam o emprego e a poupança; até que também lhes sejam roubados.

Em maior ou menos grau, já somos todos gregos. ******

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Obama: O golpe ideológico da hora

Vila Vudu...
Miséria econômica (de ‘classe média’) & dominação (de classe dominante): Obama: O golpe ideológico da hora 28/1/2015, Norman Pollack, Counterpunchhttp://www.counterpunch.org/2015/01/28/ideological-trick-du-jour/#.VMlA-woG9MI.email

Por que tentar agora uma discussão teórica do capitalismo, embora esquelética e fragmentada, quando tanta coisa acontece pelo mundo, a militarização da cultura dos EUA com reforço social para sua postura hegemonista – mais ameaçada do que nunca antes desde a 2ª Guerra Mundial pelo crescimento de outras nações e respectivas economias políticas, no que se vai rapidamente tornando um sistema internacional multipolar? A pergunta quase se autorresponde.

Os EUA correm cada vez mais apertados, talvez já com medo, nada habituados a que alguém desafie seu domínio exclusivo unilateral sobre o tal sistema, apoiado em “amigos e aliados” servis e na FORÇA, real e de reserva, para implementar a suserania norte-americana.

Essa semana, foram Índia e Arábia Saudita: fazer a sintonia fina do Império, negociar e/ou renovar alianças militares, oferecer garantias de segurança-proteção, processo sem fim de pôr um dedo no buraco para fechar a represa, sendo o buraco, nesse caso, a aspiração das pessoas a uma vida livre de exploração, acordos comerciais enviesados e tortos, o cogumelo nuclear engordando sempre no céu e escurecendo todos os futuros.

Por que agora, outra vez? Talvez pela mais transparente das razões, o discurso Estado da União de Obama, com seu mais recente cliché de enganação: a chamada economia de classe média, para encobrir a diferença escandalosa entre ricos e pobres, para, assim, enrijecer a estrutura de classes nos EUA, com consequências mais antidemocráticas a cada dia.

Novos dados da distribuição de renda explicam o golpe, pelo menos em parte. Mas não explicam tudo, porque o poder cresce geometricamente quanto mais amplas sejam as fundações, e quanto mais seja dado por indiscutível e confirmado pelo povão (submisso, doutrinado, engambelado, acostumado).

Em nenhum lugar mais que nos EUA, com seus mentirosos clamores de democracia, de superação das classes, de guardião da paz do mundo e do estado de direito, o poder traz com ele mais falsa consciência, com a IDEOLOGIA que vem à tona na estabilização e aprofundamento do capitalismo.
Daí, a economia de classe média, que não passa de capitalismo de monopólio embrulhado em papel-de-seda para parecer política inclusiva de oportunidades feita conforme a receita: Todos somos capitalistas! Todos somos altruístas! Somos todos iguais – posto que todos somos norte-americanos.

O subterfúgio é velho como as montanhas – Tocqueville bebeu no mito, as modernas empresas de relações públicas/propaganda/publicidade vivem da coisa, desde então, e o Evangelho dos Ricos opera sem parar, executivos de empresas & bancos, glutões in extremis, varrendo a entrada.

Obama é talhado para nossos tempos, sujeito sem nenhum escrúpulo, agente avançado da plutocracia. Com seus predecessores, a chicanería era óbvia, Clinton, o Democrata, mãos-nas-mãos com Bush, o Republicano, passo a passo na arena da desregulação, penetração no mercado do outro lado do mundo, e estímulo econômico de preparação para a guerra, solenemente pronunciado “segurança” e “defesa”.

Mas quem leva a taça é Obama, enterrando o processo de acumulação de riqueza nas platitudes do norte-americanismo, a mais modernosa economia de classe média.
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Herbert Marcuse em Razão e Revolução,[1] um dos trabalhos mais significativos da filosofia política do século 20, diz no Epílogo que a sobrevivência do capitalismo dependeria de ele absorver a própria negatividade, tarefa crítica para que fosse bem-sucedido, mas superior aos seus meios. Dito de modo mais simples, o capitalismo é suas contradições, não como alguma fórmula abstrata (para mim) de materialismo dialético, mas nos modos políticos e estruturais mais pão-com-manteiga, de comportamento sistêmico que leve à formação e à manutenção de um estado-classe no qual os trabalhadores em termos relativos, aproximam-se muito do exército industrial de reserva de Marx, via uma condição de subconsumo que o mantenha onde está, e o princípio da HIERARQUIA firmemente intacto no dia a dia.

Contradições que são como código, então, para normalizar a repressão. Mas... não! Pode-se chamar a coisa toda, mais simples, de “economia de classe média”.

Discuti recentemente nessas páginas aquele discurso, o golpe de
Ben e Rebekah [convidados de Michelle Obama para assistirem ao discurso na Casa Branca] para personificar e miniaturizar o capitalismo avançado, Todos & Todas sentados à mesa do café da manhã preparando a lista de compras do dia, enquanto Johnny sai para a escola – um conto de Megacapitalismo digno, como escrevi, de Goebbels.

Mas voltemos à distribuição de renda, não com Kuznets, ou melhor, Gabriel Kolko de “Riqueza e Poder”, para contrabalançar o piegas social-democrata de Michael Harrington “A Outra América”.

Em vez disso, tomemos o artigo de Dionne Searcey e Robert Gebeloff no New York Times, “
Nos EUA, a classe média só encolhe, com mais gente saindo dela, do que ascendendo para ela“ (Jan. 26), como resposta informal à economia de classe média. Começam assim: “A classe média que o presidente Obama identificou em seu discurso do Estado da União semana passada, como o fundamento da economia norte-americana vem encolhendo já há quase meio século.” Nada mau para o The Times, até aí.

Mas eles também desapontam, usando uma banda elástica de renda, de $35 mil a $100 mil, para definir a classe média, onde se encaixavam, no final dos anos 1960s, metade dos lares norte-americanos. Ninguém (exceto, claro, os que foram expulsos da ‘classe’) percebeu a mudança em curso, porque muitos mais estavam “ascendendo a ladeira econômica para as faixas mais altas.”

Nesse ponto, Searcey-Gebeloff ficam mais sérios (digo isso, porque estatísticas pré-2000 mostram quadro diferente, quando os níveis de renda são mais precisos, incluindo a proporção nos 2/10 inferiores de renda): “Mas desde 2000, a faixa de classe média continuou a diminuir nos EUA. A razão principal da diminuição é que mais gente passou a escorregar para faixas inferiores. Ao mesmo tempo, poucos e cada vez mais poucos dos que estavam nesse grupo enquadram-se na imagem tradicional de casal casado com filhos em casa, espaço preenchido cada vez mais por idosos.” E os autores admitem: “Mesmo assim, independente da renda, muitos norte-americanos identificam-se como ‘classe média’.

O termo é de tal modo amorfo, que políticos muitas vezes citam esse grupo ao introduzir propostas para as quais buscam apoio amplo.” (E, ideia minha: nem pensar que Obama estaria usando o discurso do Estado da União para fazer a mais reles propaganda!) Mesmo nessa faixa de renda, “muitos norte-americanos que fazem mais que $100 mil se autoconsideram de classe média”, especialmente “quem viva em regiões caras”, como a Costa do Nordeste e a Costa do Pacífico. Quase dá pena dos que estão na ou acima da faixa dos $100 mil – mais uma vez: a minha; os jornalistas observam: “Contudo, as linhas estão traçadas, é claro que milhões estão lutando para não perder itens que a maioria dos especialistas consideram essenciais para uma vida de classe média.”

As mudanças demográficas na composição da “classe média” são instrutivas. “A classe média passou por uma transformação, ao mesmo tempo em que encolhia” – escrevem eles. – Idosos trabalhando depois de se aposentarem caem aí; casais com filhos pequenos caem abaixo dessa faixa como a vemos hoje. Significa que “em anos recentes, o componente de mais rápido crescimento da nova classe média têm sido lares chefiados por pessoas com mais de 65 anos,” com as aposentadorias garantindo alguma proteção, “agora que norte-americanos idosos cada vez mais trabalham até bem depois da idade tradicional de aposentadoria.” Por outro lado “casais com crianças – a categoria que mais encolheu – são a categoria que também diminui mais rapidamente de toda a classe média.” Mulheres casadas na força de trabalho vêm impedindo que esse grupo caia ainda mais. “A mais recente recessão pôs fim a qualquer avanço mesmo nessa categoria em geral bem-sucedida. Sua porcentagem na classe média caiu três pontos percentuais, e o grupo que vive com menos de $35 mil dólares/ano aumentou.”

Mas vai tudo bem no Mundo Todo Feito de Pirulitos de Obama.

Adiante, o comentário que enviei ao New York Times, sobre o artigo de Searcey-Gebeloff:

Enquanto alguém falar de “classe média”, seja estatisticamente (a faixa de $35 mil-$100 mil é absurda) ou como tópico de narrativa, continuaremos a ser enganados, induzidos a pensar que a distribuição de renda é mais democrática do que é, e que o poder está distribuído mais equitativamente do que na verdade está.

A tal “classe média” de Obama não passa de bordão de Relações Públicas, truque deliberado para não deixar ver a realidade. O presidente apela às almas boas para que vejam os EUA em termos não estruturais de não classe, ocultando assim a concentração de riqueza e varrendo para baixo do tapete tudo que só faz aumentar a DESIGUALDADE.

Ao usar esse quadro de referências que, claro, foi predominante por décadas, The Times contribui para a visão de que pobreza e riqueza possam ser analisadas e discutidas em termos não sistêmicos. Mas... E se a desigualdade estiver inscrita nas fundações da sociedade norte-americana?

E o quanto, para o bem ou para o mal, têm a ver com o fracasso econômico demográfico, o gasto militar massivo, a guerra, a intervenção e o militarismo em geral?

Os EUA como nação dependemos do militarismo. Os números seriam ainda piores se não estivessem aí esses gastos e essas políticas militaristas. E nem se fala do empurrão artificial que a economia recebeu.

O discurso “Estado da União” de Obama foi solene farsa, em plena discussão séria sobre “em que pé estamos?”. O imposto para empresas que ele propõe é inferior ao que temos vigente hoje. A ‘desregulação’ de Obama só faz promover a consolidação financeira de vários modos da acumulação de capital. Ponha na mesma conta a inflação, e o que se tem, seja por decisão política ou por consenso bipartidário, é muita gente lutando para não morrer.
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[1]HERBERT MARCUSE [1898-1979] (1941) Razão e Revolução. Hegel e o surgimento da teoria social, Rio de Janeiro: Paz e Terra [NTs].