sexta-feira, 20 de abril de 2012

Experimentar, experimentação

15/4/2012, Judith Revel, Uninomad 2.0
http://uninomade.org/sperimentazione/

Se o tema da “experiência” sempre foi objeto de alentados debates teóricos, e se a palavra é reconhecida como parte do vocabulário da filosofia, a noção de “experimento, experimentação” é por muitos motivos muito menos fácil de usar – salvo quando se refere àquele tipo de interrogação filosófica específica, epistemológica, que analisa os modos de funcionamento e as práticas científicas. Mas o que acontece quando se tenta introduzir uma noção como a de “experimento, experimentação”, na reflexão política?

Para o senso comum, uma política digna do nome é quase sempre o exato oposto do que poderia implicar a experimentação, se a experimentação – bem longe do significado que tem para a pesquisa científica, onde se refere a um eficaz mecanismo de validação e/ou invalidação das hipóteses – é, ao contrário, uma tentativa, uma sondagem, um bricolage. Em resumo: é como o passo incerto de quem avança, tateante, sobre terreno desconhecido, tentando ver melhor até que ponto seria realmente possível aventurar-se.

Por que temos tanta dificuldade para imaginar que a reflexão e a prática política podem ser objeto de experimentação? E, se pudesse acontecer, o que seria, de fato, um experimento, uma experimentação?

Nossa incerteza deriva, provavelmente, do fato de que a experimentação tenha ficado prisioneira de uma velha ideia, em virtude da qual temos sempre de reconhecer nossos limites: para bem agir, é preciso antes de tudo, conhecer; e para conhecer, é preciso ter traçado uma linha de separação entre o que nos foi concedido possuir pela consciência, e o que, ao contrário, de modo algum pode ser posto como objeto.

Quantas vezes consideramos a experimentação como espécie de refugo do que seria “racional” e denunciamos o idealismo, o irrealismo. Fizemos isso em nome de um pragmatismo que logo se converteu em senso comum daquela economia de homens e mulheres que se chama “a arte de governar”. Denunciamos a experimentação como risco inútil, como por em perigo nossas certezas mais necessárias, como a subversão de uma ordem que pré-estabelecemos: por que andar tateando, onde nos podemos apoiar na presença que nos dá segurança, das referências, das linhas, das redes conceituais e dos pontos fixos? Em resumo: fizemos da experimentação o exato oposto do que é geralmente imposto como objeto da política: uma boa gestão das coisas existentes, ou, em outras palavras, uma aceitação baseada nas necessidades do mundo. Demos aos cientistas a tarefa de experimentar no campo da pesquisa fundamental, mas o fizemos de tal modo que nossa existência concreta – ficasse, paradoxalmente, protegida.

A separação das três perguntas: “o que posso conhecer?”, “o que devo fazer?” e “e o que me é dado esperar?”, tão familiares aos leitores de Kant, continua a irrigar o pensamento contemporâneo. Conhecer, agir e esperar implicam três distintos espaços de reflexão. Pois tentemos pensar na direção contrária. Conhecer, agir, esperar: embora não queiramos que se sobreponham, a disjunção entre as três aponta, precisamente, como numa imagem em negativo, a longa via – mas sempre possível – da experimentação política; porque, se a experimentação ainda pode ter algum sentido para a pólis, é exatamente esse: conhecer, agir, esperar, num só gesto; saber, modificar e inventar juntos.

Michel Foucault, no fim da vida, voltou ao sonho louco de fazer valer na nossa vida – quer dizer, tanto na prática da filosofia como nos gestos cotidianos a partir dos quais construímos nossa existência – exatamente essa experimentação. E o fez, num jogo muito irônico, em comentário a um texto de Kant.

Mas não do Kant das três Críticas; e, sim, de um texto em que Kant, fascinado pela incisiva ruptura que representava, na metade dos 700, o pensamento das Luzes, tentava dizer, a seu modo, o que o século estava tentando inventar.

“O que é o Iluminismo?”
[1], o texto kantiano, data de 1784, cinco anos antes da Revolução Francesa. Duzentos anos depois, em 1984, Foucault, leitor de Kant, descobre o enorme valor daquele texto, no momento em que fora escrito: a tentativa de ler, no momento presente, alguma coisa de inaugural e de nova – a Razão chegada afinal à sua maturidade. Mas ele também lerá (e, provavelmente, tanto quanto discerne) a esperança de uma experimentação política, de uma exploração dos possíveis, de um desejo de liberdade selvagem (farouche) além das constrições e das determinações que a época, apesar de tudo, impõe.

Essa experimentação é aquela que o próprio Kant, depois do tumulto de 1789, quase 15 anos depois do primeiro texto, caracterizará como um desejo de revolução, quer dizer, ao mesmo tempo como uma disposição de toda a humanidade e como uma novidade irredutível às determinações históricas nas quais a revolução se dá: “não se esquece de um tal fenômeno na história da humanidade, porque revelou na natureza humana uma tal disposição, uma tal faculdade de progresso, que nenhuma política havia podido, nem com a máxima sutileza, deduzir do curso precedente dos eventos” (I. Kant, O Conflito das faculdades
[2]).

A revolução experimenta, enquanto avança tateante e abre vias inéditas. E quando ocorre de “cair na rotina” – imagem do próprio Kant; e mesmo que derive ou fracasse conscientemente, ainda assim testemunha a potência dos homens e mulheres para inventar, de dentro do próprio mundo.

A experimentação é precisamente esse questionar o campo atual dos possíveis. Bem distante da utopia – que não trabalha por dentro do “já dado” das coisas presentes –, a experimentação tenta a aposta, ao mesmo tempo em que analisa o que é, e tenta sua transformação radical. Não se trata nem de reduzir-se ao mero registro das necessidades sofridas de um mundo, nem de sonhar com outro mundo: trata-se de mudar esse mundo que há.

Uma política da experimentação é portanto a antípoda da renúncia (da qual o pragmatismo não passa, muito frequentemente, de bela máscara). Tampouco tem algo a ver com os sonhos estéreis de volta a um Éden perdido, ou da variante que promete “um futuro risonho” ou um “luminoso porvir” – em resumo, nada tem a ver com horizontes inalcançáveis e por isso sempre voltam.

Se tem de ser posta em prática, essa prática experimental da política “não deduzirá das formas do que somos o que é impossível fazer ou conhecer; mas libertará da contingência o que fez ser o que somos, a possibilidade de não o ser mais – não o fazer mais, não o pensar mais – o que somos, fazemos ou pensamos” (M. Foucault, O que é o Iluminismo?
[3]). Em resumo, é uma atitude nas fronteiras do mundo, que faz de cada homem aquele que, ao mesmo tempo, diagnostica a própria situação, cartografa as próprias determinações e inventa uma diferença possível.

Assim, a política é em grande parte requalificada e pode-se quase usar os termos que Foucault usa a propósito da atitude crítica em Kant, no momento em que a crítica reveste a história: “é preciso não concebê-la como uma teoria, uma doutrina, sequer como um corpo permanente de saber que se acumula; é preciso concebê-la como uma atitude, um ethos, uma vida filosófica na qual a crítica do que somos é a própria análise dos limites postos e a tentativa de sua superação possível”.

A política como experimentação não é outra coisa que esse duplo movimento de busca e de individuação das formas e do estado presente das coisas, por um lado; e, por outro, da invenção de possíveis inéditos. Certo, a experimentação não exclui nem os erros nem os fracassos – mas a simples aceitação do que é sempre nos preserva dos horrores da história, nessa beira do tempo durante o qual, a qualquer momento, homens e mulheres, embora construídos pela história, tornam-se atores da história.

Hoje, a experimentação política está no coração de uma série de realidades, que, cada uma a seu modo, dizem da força da intuição kantiana e confirmam a justeza da análise de Foucault. Posto que a história não é imóvel, a gramática e as instituições políticas da modernidade estão em plena mudança.

Tudo se move: o conceito de cidadania e a realidade material das fronteiras nacionais, a própria representação política como cimento da democracia moderna e as formas “alargadas” da ação política coletiva (partidos e sindicatos), o sentimento de pertencimento e a definição do que chamamos de “esfera pública”, a extensão da governança estatal até espaços que teríamos provavelmente considerado, até há poucos anos, como esfera exclusiva do privado, e a emergência, bem além de qualquer simples divisão entre público e privado, de uma nova qualidade para todos os bens – nem estatais, nem privados, nem públicos, mas comuns.

Há de tudo para ser reinventado, a partir de dentro de um mundo que foi formado por quatro séculos de modernidade e que continua, ainda agora, em grande parte, moderno. Do recente fenômeno dos “indignados”, aos diferentes movimentos Occupy, das experimentações de democracia participativa às mais variadas formas de coletivos – usuários de serviços, moradores de quarteirão, trabalhadores, sem-documentos, sem-teto, sem-terra, defensores do meio ambiente... – e da copropriedade, tudo incita a repensar as vias da ação política: como tomar a palavra, como fazer-se ouvir e como ouvir os outros, como organizar-se, como tomar decisões, como fazer-se entender, como agir, como administrar uma relação de forças.

Por isso é preciso pensar hoje a experimentação: com certeza é um tatear, e muito claramente é um bricolage; mas nunca sem antes, em primeiro lugar, ter analisado
​​localmente, pontualmente, aquilo de que se trata; nunca antes de haver compreendido de que era feito o mundo, para que se possa construir outro.

Desse ponto de vista, a experimentação é o contrário da política como sistema: faz ninho nas pequenas coisas, constrói-se de baixo para cima, ensaia e recomeça, gagueja e aprende, partilha e arrisca-se, corrige-se e reforça-se; e os seus efeitos de realidade são muito menos importantes que aquilo de que a experimentação dá testemunho: o que Foucault chamava, em tom divertido, de “o trabalho indefinido da liberdade”.

* BRUGÈRE, F.; LE BLANC G., Dictionnaire politique à l’usage des gouvernés [Dicionário político para uso dos governados], Paris: Bayard, 2012, 505 pp.
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