segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Militante de extrema esquerda era considerado o inimigo público número um da ditadura militar

SÃO PAULO - Considerado inimigo público número um da ditadura militar, o guerrilheiro Carlos Marighella será homenageado na segunda-feira, dia do centenário de seu nascimento, pela Comissão de Anistia. A família dele receberá, em Salvador, cidade natal do ex-líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) , o pedido formal de desculpas do Estado brasileiro por causa da perseguição política que sofreu ao longo de toda a vida.

Entre parentes e ex-companheiros, o evento, em que será concedida a anistia política ao guerrilheiro, é visto como símbolo de resgate de sua figura.

— Pode fazer com que novas gerações se interessem em conhecer a importância do Marighella ao país — diz Clara Charf, viúva do líder da ALN.

— É o coroamento de 40 anos de luta para fazer com que o país conheça uma figura que viveu condenada a um silêncio total por todo esse período — afirma Carlos Augusto Marighella, filho do guerrilheiro com Elza Sento Sé.

Filho afirma que imagem de Marighella foi destruída

Para Carlos Augusto, a ditadura militar teve a preocupação de destruir a imagem de seu pai.

— Não permitiram que a família tivesse o direito de sepultá-lo. Ele era apresentado como um facínora, um terrorista. O inimigo da pátria.

Sueli Bellato, uma das vice-presidentes da Comissão de Anistia, acredita que a concessão da anistia pode ajudar a sociedade a ter mais informações sobre o papel do guerrilheiro na História.

— A concessão da anistia traz a possibilidade, aos que não tiveram acesso na academia a esse período histórico, de saber o que aconteceu e reconhece qual foi a contribuição que pessoas como Marighella quiseram dar ao nosso país — afirma.

A homenagem acontecerá no Teatro Vila Velha, a partir das 15h. A família entrara com o pedido de anistia política neste ano, e o processo será julgado no evento. Não houve pedido de indenização. Na ocasião, também será lançado o Pró Memorial Marighella Vive, que irá reunir acervo sobre o ex-líder da ALN. Ainda em razão do centenário, no dia 15 dezembro ocorrerá um evento na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio. Vão participar também a OAB , o MST, o Grupo Tortura Nunca Mais, a Fundação Dinarco Reis (ligada ao PCB) e a Rede Democrática.

A ideia dos organizadores é dar início ao Ano Marighella, com atividades, palestras, debates e seminários pelo país. Sindicatos de professores também serão procurados para que a história do guerrilheiro seja levada à sala de aula.

No Rio, PCB concede medalha Dinarco Reis

No evento em homenagem a Carlos Marighella, previsto para o dia 15 no Rio, o PCB, partido com o qual o guerrilheiro rompeu em 1967 por defender a adoção do confronto armado contra a ditadura, vai entregar a medalha Dinarco Reis à família dele.

— Nós nos orgulhamos de ter tido Marighella em nossos quadros — diz Ivan Pinheiro, secretário-geral da legenda.

Durante o Estado Novo, Marighella ficou preso entre 1939 e 1945 por causa da militância no PCB. Antes da implantação do Estado Novo, mas já no governo Getulio Vargas, havia sido preso outras duas vezes. Anistiado, foi eleito deputado federal constituinte em 1945. Em 1948, no governo Eurico Gaspar Dutra, os comunistas foram cassados e ele voltou à clandestinidade.

O rompimento com o PCB, onde militava desde os anos 30, na Bahia, aconteceu após conferência de líderes de esquerda latino-americanos, em Cuba, para organizar a luta contra governos militares. Um telegrama do PCB desautorizou sua participação. Na volta ao Brasil, ele fundou a ALN e iniciou a luta armada.

Assalto ao trem pagador e manifesto na Rádio Nacional

Para Carlos Eugênio Paz, membro da ALN, as principais ações do grupo foram o assalto ao trem pagador, em São Paulo, e a tomada da antena da Rádio Nacional, em Diadema, para transmitir um manifesto. Marighella lançou, na época, o "Manual do guerrilheiro urbano". Em 1969, a ALN foi convidada pela Dissidência Comunista da Guanabara a sequestrar o embaixador americano Charles Burke Elbrick.

-— O Marighella era contra realizar o sequestro naquele momento. Considerava arriscado. Depois que houve o sequestro, divulgou apoio — lembra.

Os militares aceitaram a exigência de libertação de 15 presos políticos. Mas, após o fim do sequestro, em 6 de setembro, o cerco aos grupos guerrilheiros se intensificou.

Às 20h de 4 de novembro de 1969, Marighella foi à Alameda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo, se encontrar com dois frades dominicanos. A ordem apoiava a ALN. Mas os frades tinham sido presos três dias antes. No local do encontro, Marighella foi surpreendido pelo delegado Sergio Paranhos Fleury e morto com cinco tiros. O guerrilheiro e a mulher viviam no apartamento de um companheiro em São Paulo.

— O dono da casa tinha ficado de ir buscar Marighella. Mais ou menos 9h da noite, o companheiro entrou e eu disse: Cadê o Marighella? Aí, ele falou... — lembra a viúva Clara Charf, de 86 anos, bastante emocionada.

Clara conta que o marido manifestava a intenção de jamais se entregar caso apanhado e andava com duas cápsulas venenosas de cianureto.

— Ele não se entregaria nunca. Foi torturado várias vezes, achava que era impossível se deixar prender. Ele quase morreu em outras vezes.



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