segunda-feira, 1 de julho de 2013

CARTA A UM EXILADO

Por Raul Longo

Amigo meu, do outro lado do Atlântico me escreve perguntando o que está acontecendo no Brasil. Respondo e repasso:

A questão dessa baderna que se têm feito pelas cidades brasileiras é preocupante e o que a motiva é bastante reconhecível. Notadamente a TV Globo vêm especulando novas tentativas de desgastar a popularidade do governo para criar alguma oportunidade à oposição nas próximas eleições.

Mais que isso, estimula a insatisfação dos militares. Acabou uma novela onde o herói era um personagem do exército que por questões pessoais se envolve no combate ao tráfico de pessoas e já começa outra em que integrantes da aeronáutica desenvolvem investigações de corrupção como se fossem da Polícia Federal.

Aproveitam-se da comoção dos militares pela Comissão da Verdade e da Justiça conferida à Dilma Rousseff a quem acusam de revanchista, o que não deixa de ser um reconhecimento de culpa pelos crimes praticados. Não apenas à Dilma, já que muitos que acusam o revanchismo da Presidenta não a conheceram. Temem uma revanche pelos crimes praticados contra o Brasil e os brasileiros em geral, entre os quais você se inclui.

Mas na realidade o Brasil está apenas cumprindo uma exigência da OEA que determinou estas investigações por sermos o único do país do cone sul que ainda sequer investigou o desparecimento de centenas de cidadãos e a prática da tortura durante o regime das ditaduras. As duas: de Vargas e dos Militares.

Evidente que o GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão) sabe dessa condição imposta pela OEA ao Brasil, mas tentam insuflar as Forças Armadas na tentativa de desestabilizar o atual governo.

Afora isso continuam usando à exaustão a ideia da corrupção à qual sempre foram não apenas coniventes, mas grandes beneficiários. Você deve estar bem lembrando de que a Globo era apenas uma emissora do Rio de Janeiro e cresceu nacionalmente a custas da pressão da ditadura à TV Excelsior que levou Wallace Simonsen ao suicídio. Todo o patrimônio do então maior empresário brasileiro foi saqueado pelo simples fato de ele ser amigo e apoiar o governo de Jango Goulart. Assim a Globo se tornou a maior empresa de comunicação do país e com a extinção da Panair, do mesmo Simonsen, a VARIG dominou o tráfego aéreo.

O combate à corrupção desde o início do governo Lula levou a VARIG a falência e recentemente uma publicação dos Estados Unidos comentou o impressionante número de pessoas levadas a cadeia por esse crime, afirmando que em nenhum outro país tantos corruptos são identificados e aprisionados quanto no Brasil. Mas lógico que o GAFE não revelará ser esse o motivo de seu o anseio pelo retorno dos tucanos que lhes foram ainda mais propícios do que os militares.

Eles criaram Collor de Melo para substituir a ditadura na defesa de seus interesses e para isso usaram uma novela: “Que rei sou eu?”, respaldada pela manipulação dos noticiários sobre aquele a quem a revista Veja batizou de “Caçador de Marajás”. Acontece que Collor resolveu repartir o butim exclusivamente com os de seu próprio grupo e se sentiram como o chefe do cartel de tráfico ludibriado pelo mula”.

Então lançaram outra novela: “Anos Dourados”, e levaram a rapaziada de então às ruas inventando o Movimento dos Caras Pintadas para derrubar a própria criatura. Como declarou Roberto Marinho à produção da BBC em “Além de Cidadão Kane” que pode ser assistida pela internet: “Nós o pusemos e nós o tiramos”.

Com o Plano Real FHC deu a impressão de ter controlado a inflação, mas apenas maquiou a especulação cambial, congelou os salários, a produção e o mercado enquanto novos saques eram estimulados com as privatizações. Com seu naco no esquartejamento do bem público a mídia deu sustentabilidade ao governo e ao ego do tal sociólogo. Acontece que os saques raparam o cofre público e no segundo mandato Cardoso levou o Brasil aos cofres internacionais, aprofundando a crise social e a dependência do país engessado e privatizado através de orgíaca corrupção que sucateou nossa infraestrutura e elevou a inflação aos píncaros.

O fosso era tão fundo que tinham total certeza de que o operário nordestino sem estudos jamais conseguiria sair de lá de dentro, só que “sem estudo” não é sinônimo de burro nem de canalha e em 3 anos o operário fez o que eles não foram capazes de fazer desde 1964, durante 4 décadas.

Daí o jeito foi inventar a novela do Mensalão, mas o herói que arrumaram estava mais para vilão de cinema mexicano. Tentaram até transformá-lo em tenor de opereta através do programa do Jô Soares, mas definitivamente não convenceu: canastrão e demais de desafinado. Além de que o enredo foi muito mal desenvolvido pelo roteirista e a população não conseguia compreender como é que “o maior esquema de corrupção da história do Brasil” pôde pagar a maior dívida externa da história das nações. Nesse impasse a população não foi às ruas e o golpe, através do impeachment ao governo Lula, não só gorou como o operário foi reeleito.

Já pro final do segundo mandato viram que não tinha mais jeito e no desespero tiveram de se reivindicar como admiradores e apoiadores do operário nordestino, mas sem deixar de cair de pau na perigosa terrorista procurada pelo DOPS. Burrice, pois assim como eu e você muita gente lembra que o verdadeiro terrorista perigoso era o DOPS.

Dilma se elegeu como candidata do Lula e com a fama de durona. Essa fama lhes fez medo e, por outro lado, tiveram de recolher as agressões que, por ser contra uma mulher, à população soou como mera deselegância e chauvinismo.

E assim vêm procurando e testando novas possibilidades de promoção de golpe contra o governo do PT, um partido que no geral é falho como qualquer outro, mas sob o qual se reúne o melhor quadro de estrategistas políticos do Brasil. Como nos demais partidos de todas as tendências, a maioria dos integrantes do PT também é de personalistas cujos interesses políticos não passam de projetos individuais, mas José Dirceu já havia defendido o partido do fisiologismo através do chamado Núcleo Duro.

Não circulo dentro do PT nem tenho informantes no governo, mas observando de fora tenho a impressão de que existam dois PT: o que está no governo e outro no partido. Isso também tem sido problema para a oposição que ficou sem o flanco partidário para bater. Por mais que arrebentem as desguarnecidas defesas do partido não atingem o governo.

Foi o que se pôde sentir com o reaquecimento da gororoba do Mensalão através do STF, em tentativa de manter os espaços regionais sob o poder da direita. Novo espetáculo mediático para o qual tiveram o cuidado de inovar escolhendo um herói negro: Joaquim Barbosa. Outra burrice isso de acreditar que basta enfiar um negro na trama para o “Vale a Pena Ver de Novo” conquistar popularidade.

De nada adiantou, até porque arrumaram um negro pernóstico e antipático, tão ególatra quanto qualquer branco metido. Não é por ser negro ou branco que se distingue o caráter das pessoas e a cor da pele não dá direito a ninguém de impor versões de fatos não ocorridos. Juiz ou trocador de ônibus, mentiroso é mentiroso e o atual presidente do STF mentiu um encontro circunstancial para a comprovação de desvio de dinheiro público que só poderia ter ocorrido se o indicado como corruptor ressuscitasse da tumba onde enfiaram seu corpo 2 meses antes, após morrer num desastre de avião.

Mas mesmo antes de desfiar o cozido pelo Barbosa durante o julgamento do Mensalão, o angu de caroço já se comprovou intragável ao paladar do eleitorado, pois a oposição perdeu as eleições de todo jeito, inclusive à prefeitura de São Paulo.

Qual a saída? Sem candidato e proposta o jeito é levar as massas às ruas, criar clima e justificativa para tirar as tropas dos quartéis, mobilizar as elites, entusiasmar a classe média, alimentar mais uma impressão de “revolução de república das bananas” tipo aquela de 64 em resposta à marcha de deus com a família pela salvação da propriedade. Claro que mera reunião de senhoras de Santana não justificaria os ânimos arredios das Armas mal vistas pela lembrança das “exceções” do passado, mas como vivemos em tempos de informática, encontrou-se o jeito que na época sugeri para conter o golpe do Mensalão. Então a esquerda ficou cética e garantiu que não há mais meio de mobilizar multidões.

Há! Há, sim. Como houve na Primavera Árabe, como houve na Espanha, como há em qualquer parte do mundo. O que falta é liderança para apontar rumos à multidão, pois uma multidão sem rumo é um monstro e aqui no Brasil só há uma personalidade capaz de dar rumo a essa multidão que hoje ocupa as ruas e certamente não é Aécio Never, a Heloísa Helena, o Eduardo Campos e ainda menos FHC ou Serra. Nem preciso dizer o nome do único brasileiro capaz de dar algum sentido a essa rapaziada em movimento nas ruas. Em movimento para justificar outros movimentos que nada têm a ver com esses que jovens que se movimentam pelas ruas do país sem ter a menor ideia do porque se movem.

Há pouco mais de um mês ensaiaram uma convocação popular usando o programa Bolsa Família. Num final de semana andaram distribuindo pela internet a notícia de que o programa seria suspenso e quem não retirasse o último pagamento do benefício até o primeiro dia útil da semana seguinte, ficaria sem.

O ensaio deu certo e na segunda-feira a multidão acorreu às agências da Caixa Econômica tumultuando o sistema financeiro do banco. Como pobre é mais recatado e educado do que a classe média, não houve nenhum quebra-quebra, nenhum vandalismo. Aqueles tinham um objetivo e a meta era apenas a de garantir o que a informação mentirosa afirmava que deixaria de existir.

O movimento engarrafou temporariamente o tráfego dos recursos da instituição, mas nada que não se resolvesse rapidamente. Tudo foi normalizado em poucos dias, mas o teste comprovou aos golpistas a eficácia do método. Era só esperar a próxima oportunidade que já vinha sendo sistematicamente criada pela mídia através de acusações diárias de superfaturamento nas obras dos estádios que recepcionarão a copa do mundo e, agora, a das Confederações.

Meses antes o noticiário repetia a cada edição que os estádios não estariam prontos a tempo. Pois ficaram prontos e como em todas as copas e olimpíadas que ocorrem pelo mundo afora, aqui também os custos das obras superaram as previsões, como acontece em qualquer obra de pequeno, médio ou grande porte, seja empreendimento civil ou público. Eu mesmo, depois de orçar e re-orçar minuciosamente os custos de material e mão de obra para a ampliação de cerca de 14 metros quadrados de sala e cozinha daqui da pousada, já quebrei minhas minguadas economias e o que imaginei em 15 mil vai me sair a 30 e sei lá onde vou poder buscar dinheiro para o que falta.

Pois a mídia passou a acusar o governo de ter buscado o dinheiro para a conclusão dos estádios retirando-os dos custos dos programas sociais. Aqueles mesmos programas que ainda ontem acusavam de demagógicos. Mesmo com os programas sociais, como o Bolsa Família, funcionando sem qualquer alteração, a multidão que lotou a abertura da Copa das Confederações vaiou Dilma na inauguração do segundo maior estádio do Brasil: o Mané Garrincha.

O mais espantoso nem é a deslavada mentira sobre o desvio de verbas dos programas sociais, mas o fato de que o preço mínimo pago de ingresso à abertura da Copa e inauguração do estádio foi de R$ 160,00. E o máximo de mais de R$ 800,00. Ou seja, ninguém entre os que vaiaram a Dilma por acreditar que desviou dinheiro de programa social, precisa utilizar benefícios dos programas sociais.

Juntasse a vaia da classe média em Brasília ao aumento de R$ 0,20 (vinte centavos) nas passagens de ônibus urbanos, e pronto! É só acender o pavio pelas redes sociais da internet convocando a multidão às ruas.

De resto é seguir o exemplo do mestre Paulo Maluf e infiltrar os provocadores para depois mandar a polícia descer o cacete como aconteceu na Freguesia do Ó na década de 70, está lembrado? Nisso Geraldo Alckmin, com carinho, dá lição ao mestre, pois em seu mandato anterior o superou em muito sequestrando o estado todo através do PCC. E por pouco não elege um integrante da facção na última eleição a deputado estadual! Só não deu certo porque a polícia desconfiou da Ferrari que o correligionário do PSDB adquiriu em apenas três anos de liberdade condicional.

Mas vai dando a impressão de que perderam a mão mais uma vez, pois a gurizada da classe média que apenas pretendia brincar de revolucionários é quem tem tomado borrachada da polícia do Alckmin que ainda não prendeu nenhum provocador encapuzado. Nem mesmo para descobrir a cara de quem se esconde atrás da carapuça.

E o que se pretendia como revanche da derrota do Serra para o Haddad, começa a se voltar contra o feiticeiro, pois ontem queimaram um boneco de pano onde se inscrevia a sigla PSDB. No vídeo, a tomada da câmera da TV Bandeirantes distingue claramente a sigla com o tipo de letra usado pelo partido, mas o narrador do noticiário da emissora primeiro afirmou que o boneco representava o PT e só quando se deu conta da inegável visibilidade das letras P,S,D e B é que jurou por todos os santos que o boneco também representava o PT apesar da imagem na tela de minha TV em nada identificar ou relacionar o boneco ao PT.

Também têm ocorrido confrontos entre manifestantes e provocadores e o protesto se espalhou por todo o país, embora invariavelmente as respostas à pergunta sobre contra o que protestam divague por disparates e ridículas manifestações de inconsequência adolescente. Na maioria das respostas não há nada a ver com os R$ 0,20 do aumento na tarifa do ônibus. Com olhinhos brilhantes de noite de baile de debutantes, quase todos os entrevistados apenas reivindicam o direito de protestar como fizeram seus pais e tios nos anos 70 e seus irmãos mais velhos atenderam ao apelo do Roberto Marinho em 1992. Demonstram-se tão dispostos quantos seus irmãozinhos mais novos se perguntados se querem visitar a Disneylândia.

Assisti a uma garota responder a pergunta direta da repórter sobre contra o que estava protestando. Sorridente e saltitante a garota respondeu sob o olhar orgulhoso do papai ao lado: “- Nash! Sei lá... Contra tudo o que está aí.”

Por ser previdente a repórter não perguntou o que é que está aí, pois se o fizesse a garota poderia começar a pensar e quem pensa descobre algo sobre si. E é aí que mora o perigo!

Imagine você se um grupo de provocadores bem intencionados começa a chamar as palavras de ordem do nosso tempo. Coisa tipo: “Fora Globo que o povo não é bobo!”

Como dizia Vandré, isso será “a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”. Ou numa conclusão mais clássica pode ser tornar em “tiro que saiu pela culatra”.

Mas ainda é cedo para cogitações otimistas ou pessimistas. É preciso esperar para ver como eles se viram para conter o que deflagraram, caso o exército não ponha as tropas nas ruas para mandar a garotada de volta pra casa.

E aí tem outra questão a ser avaliada: se intervier o exército não estará criando as Dilma Rousseff do futuro?

A meu ver, dê no que dê as investigações da Comissão da Verdade e da Justiça da OEA, em nome dos patronos das instituições de defesa da pátria a Justiça Militar deveria mais é julgar os criminosos que depõem contra a imagem das Forças Armadas Brasileiras perante o mundo, antes de fazer o país passar pela vergonha de ser obrigado a fazê-lo por um organismo internacional. Além disso, há que se considerar o risco de ao longo da rave urbana esses garotos incluir nesse “tudo que está aí” os reflexos e consequências do mais longo período da história política brasileira depois do Império.  

Não sou soldado e não vou me deixar utilizar por essa onda. Também não vou gritar que o povo não é bobo. Se a rapaziada começar a ficar esperta, quem pariu Mateus que o embale.
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