sábado, 9 de março de 2013

Chávez na História

Tereza Cruvinel

Durante os 14 anos em que exerceu o poder na Venezuela, e mesmo antes, Hugo Chávez foi demonizado pelo liberalismo ocidental. Sua figura atípica, seu estilo atrevido e sua liderança insólita desconcertavam os adversários. Irritavam e inquietavam. Com absoluta falta de cerimônia ele era chamado de caudilho, déspota, ditador. Agora que ele se foi, o rascunho começa dar lugar ao texto da História, e os adjetivos cedem lugar a algumas verdades, como o fato de que nunca exerceu um dia de poder que não tenha sido legitimado pelo voto popular. Sua morte física deve permitir também a melhor compreensão de seu papel na construção da atualidade política do continente e do mundo.
A morte abranda ódios e paixões, favorece a mais justa reflexão e aclara os contextos do passado, no que pese a obscurantista reação de um líder do Partido Republicano americano, que celebrou sua morte dizendo que já ia tarde, contrastando com a civilidade da oposição venezuelana.
Quando o texto definitivo da História for escrito, Chávez não surgirá como santo ou como infalível, o que não era, mas sua importância e o significado de sua liderança contrastarão com as crônicas implicantes do tempo em que viveu. Quando Chávez foi eleito pela primeira vez, em 1998, era lembrado o tempo todo pelo fato de ter participado de uma fracassada tentativa de golpe, com ideário nacionalista e reformador, em 1992. O governo venezuelano estava desmoralizado mas o neo-liberalismo reinava inconteste, fechando as portas para os países pobres e periféricos. Isso não justifica o ato mas realça a ousadia política de desafiar o consenso. O mundo seguia nesta marcha quando ele tomou posse pela primeira vez em 1999. O fim da socialismo soviético, a queda do muro do Berlim e a crise no paraíso cubano não deixavam espaço para utopias. Estavam arquivados discursos sobre revolução, transformação, soberania, integração latino-americana, justiça social. Muito antes de todos os presidentes progressistas do continente que viriam a ser eleitos, como Lula, Kirchner, Morales e Mujica, Chávez começou a reabilitar estas utopias e a implementar políticas desenvolvimentistas e de cunho social. Ele é uma espécie de produto da resistência ao neo-liberalismo, e não das lutas revolucionárias, como Fidel. Era algo novo, chamado de velho.
O estilo confrontador e a linguagem áspera têm a ver com o contexto da mudança política na Venezuela. Aqui, e mesmo no Chile e na Argentina, houve uma transição. Lá houve uma ruptura com o antigo sistema oligárquico, mesmo que pelo voto, depois da quartelada de 1992. A economia estava deprimida e a pobreza assolava o pais. O dinheiro do petróleo, drenado para as oligarquias e para o exterior, passa a ser usado para financiar políticas sociais. A reforma agrária é realizada e provoca reações. Diversos setores da economia são estatizados, acirrando o conflito com algumas empresas de comunicação, o que culmina com a não renovação da concessão da RCTV. Chávez firma acordos para fornecer petróleo a preços subsidiados aos países da Aliança Bolivariana, como Cuba e Nicarágua. Sua liderança transcende a Venezuela. Governantes como Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, são eleitos com seu decisivo apoio. Entende que a economia venezuelana não irá longe no mundo global se não aprofundar relações com o Brasil e a Argentina, especialmente. Pleiteia e consegue o ingresso do país no Mercosul. Com Lula, foi um dos artífices da Unasur.
Seu legado inclui a erradicação do analfabetismo, a redução da pobreza em 37%, o aumento da renda e do emprego, a melhora indiscutível nos serviços sociais. E, mais que tudo, o protagonismo político do povo que agora o chora.
A pergunta que paira sobre seus funerais é sobre a sobrevivência do chavismo em sua ausência. Seu vice Nicolás Maduro, que ele apontou como herdeiro, disputará a eleição com o opositor do ano passado, Henrique Caprilles, dentro de 30 dias. A emoção e o sentimento de orfandade ainda serão intensos, favorecendo Maduro. Ele não é Chávez mas poderá, ou não, construir sua própria liderança. Como fez Dilma, criatura de Lula. Mas, ainda que a oposição vença, a Venezuela moldada por Chávez jamais voltará a ser o país elitista e iníquo do pre-chavismo.
Para o Brasil, nenhuma situação deve trazer grandes mudanças no relacionamento bilateral, mesmo não havendo mais a camaradagem que havia entre Lula e Chávez, herdada por Dilma. A Venezuela hoje tem um novo peso político no continente e representa um grande mercado de consumo para os produtos brasileiros, afora outros interesses comuns que tornam a relação bilateral estratégica para os dois países.
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