domingo, 3 de fevereiro de 2013

O ESGOTO DO BRASIL


Raul Longo

O saudoso Sérgio Porto ou Stanislaw Ponte Preta como era mais conhecido pelos inúmeros leitores que riam à “bandeira despregada” -- para usar uma expressão da época em que a truculência dos milicanalhas se mesclava a hilárias manifestações de burrice -- registrou no “Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País” uma forma muito peculiar dos brasileiros reagirem às próprias desgraças: com humor.

Comprova-se pela circulação do jornal de maior tiragem naqueles anos de chumbo quente: O Pasquim. E ao contrário do que afirma o editor da Folha de São Paulo a ditadura não era branda com ninguém: fez prender todos os articulistas do semanário. Para isso contribuiu também a influência do associado ao crime de sequestro nacional: Roberto Marinho.

Então construíam o emissário submarino de Ipanema e a resposta do pessoal do O Pasquim foi uma manchete de contra-capa ilustrada pela foto das obras: ROBERTO MARINHO SERÁ LANÇADO À 3 KMS. DA PRAIA. Na foto, um banhista ao lado da obra observa o próprio pé e por balãozinho lamenta: “- Xiiii! Pisei num Roberto Marinho!”

A ditadura acabou, aparentemente a democracia do país foi saneada e até alguns daqueles que naqueles anos ou em posteriores colaboraram com O Pasquim, passaram a prestar serviços para as organizações do Marinho. Mas não é de hoje que o esgoto refluiu e transborda não apenas em Ipanema, mas por todo o país.

A merda, em todos os veículos de comunicação e na cabeça de alguns que até foram brilhantes nas décadas em que usavam da inteligência que então possuíam contra o regime ditatorial, é a vingança que herdamos do Roberto Marinho por aquela manifestação de humor do O Pasquim.

Não sou  de acreditar que isso de rogo de praga, funcione. Ainda mais de morto como o Marinho (que Exu o tenha bem guardado!), mas no caso da merda que fede impregnando narizes e mentes do país, é fácil de detectar o ponto do refluxo do esgoto vazando e escorrendo a céu aberto pela internet, páginas de revistas e jornal, ondas de transmissão de emissora de rádio ou imagem de TV.

Foi por acaso que descobri que todo esse coliforme fecal a se espalhar por cada domicílio brasileiro vem do refluxo que o emissário de Ipanema canaliza para o reservatório Marinho no Jardim Botânico instalado na capital do Rio de Janeiro, num final de tarde em que ao entrar num boteco daqui do Sambaqui, Florianópolis, sou atingido por um troço emitido pelo dono do bar me dando a notícia da tragédia do mal fadado pouso de uma aeronave da TAM, ocorrida 5 minutos antes no aeroporto de Congonhas em São Paulo, como responsabilidade pessoal do então Presidente Lula.

Atônito, não conseguia imaginar quem haveria enfiado aquela pedaço de merda na boca do meu amigo e respeitado dono de tradicional botequim desse bairro, quando o pobre, de olhos injetados de tão sufocado pela excrecência enfiada goela abaixo, me aponta o aparelho de TV.

Pura escatologia à qual, quando questionado, o editor de jornalismo da Globo tentou explicar como “jornalismo de hipóteses”. Melhor se houvesse recorrido ao tradicional “perfume de feira”, pois o aromatizante que inventou não disfarçou em nada. Pelo contrário, realçou a fedentina que senti, já no primeiro momento, entalada lá na garganta do inocente e ingênuo dono de botequim .

Mas o reservatório Marinho não empesteou apenas os bons ares bairro do Jardim Botânico, como exalou por diversas outras centrais da mesma rede e em São Paulo se instalou uma cloaca tão grande quanto, ou quase, se não maior. E naquela maior capital do país a merda se alastrou de tal forma que se tornu impossível detectar onde o vazamento do esgoto é mais intenso ou de maior fluxo. Apesar do sumidouro da editora Abril transbordar profusamente a cada semana pela Revista Veja, verdadeiros gêiseres de fezes podem explodir a qualquer momento por capas de jornais diários como o O Estado de São Paulo ou a Folha de São Paulo, como se viu ocorrer no caso da falsificação de ficha policial da Presidenta Dilma Rousseff.

Enquanto isso, tentam a todo custo fechar as válvulas dos encanamentos que dariam vazão às grandes cagadas de seus aliados. Mas é o mesmo que apertar um pedaço de excremento com a mão, pois o que escorre entre os dedos atinge a olfatos ainda sensíveis e não constipados pelo cheiro da nauseabunda matéria manipulada pelos empregados limpa-fossas das oligarquias midiáticas. Foi o caso que ocorreu com Amaury Ribeiro que detectou e indicou intenso os pontos de intenso vazamento pelo livro “A Privataria Tucana”, mas aquelas famílias simplesmente viraram o nariz. Pudera! Apesar de empinados, esses narizes estão atolados na latrina.

Através do PAC o governo federal vem fazendo alarde da ampliação da rede de captação de esgoto em todo o país, mas a verdade é que a merda tem escapado por toda parte revelando a total insalubridade das mentes brasileiras. Não muitas, é certo, mas o mal cheiro que exalam é insuportável como o que ocorreu ainda esta semana quando o cagalhão Adriana Vasconcelos, correspondente do jornal O Globo e coordenadora de comunicação do PSDB, emasculada por outro bostinha de blogueiro que imitando o Ali Kamel (o defecante editor da TV Globo) criou a hipótese da boite Kiss de Santa Maria pertencer a um deputado do PT daquele estado.

Em que o merdinha se baseou para publicar o que está lhe custando um processo perpetrado pelo acusado? Em nada, pois bosta não se baseia, bosta apenas boia e foi com esta frase que a globalete coordenadora de comunicação do PSDB: boiou pelo twitter “Está explicado por que a alta cúpula do PT se deslocou para ficar fazendo encenações! Sabem por que a boate Kiss funcionava a todo vapor sem fiscalização? Porque seu proprietário é o deputado do PT-RS, Paulo Pimenta. Dilma e suas lágrimas de crocodilo não convenceram”

Vejam o furo no papel higiênico de péssima qualidade pelo qual a Adriana tentou limpar a merda que fez, quando ameaçada de ter de responder o mesmo processo: “Não deveria ter retuitado. Esse, às vezes, é um erro que cometemos por impulso nas redes sociais”

De fato, o impulso da diarreia mental dessa gente é incontrolável e compulsivamente defecam pela oralidade ou pela escrita. É preciso cuidado porque essas excreções nós expõe a todos ao vibrião colérico que se transmite exatamente pelos dejetos fecais seja lá por onde for que os expilam.

Vejam aí adiante, na análise comparativa do Paulo Nogueira, que até o Chico Caruso já foi contaminado. E o Chico ou seu irmão, Paulo, se não ambos, foi colaborador do Pasquim.

Alguém já disse que se sentiria saudade do tempos da ditadura e tinha razão, pois dá mesmo saudade do tempo em que ainda era possível se escrever uma crônica com a elegância do saudoso Sérgio Porto. Hoje não dá mais! A merda é tanta que se tornou impossível omiti-la.

Me desculpem! Nunca pretendi por a mão na merda, mas se até o Chico Caruso já desceu ao nível do humor excrementício de um Massaranduba do Casseta&Planeta ou Rafinho Bastos do CQC, não me restou outra saída.

Álcool à 90º e muito desinfetante, por favor! Abram as janelas do país e esborrifem tudo o que houver de aromatizante: limão, jasmim, citronela, lavanda. Qualquer coisa é melhor do que essa fedentina!


Caruso X Latuff
PAULO NOGUEIRA 28 DE JANEIRO DE 2013 43
Duas charges sobre Santa Maria mostram como chargistas podem ser brilhantes ou infames perante tragédias.
No blog, Noblat acrescentou a palavra “humor” a essa charge de Caruso
Fazer charge num drama como o de Santa Maria é uma tarefa para poucos.
É fácil fazer bobagem, e é difícil fazer coisa boa.
Na tragédia de Santa Maria, tivemos as duas situações. O cartunista Carlos Latuff, que se celebrizou no Brasil há  pouco tempo depois de ser acusado de antissemita, brilhou.
Latuff ironizou o abominável comportamento da mídia diante de calamidades como a da casa noturna Kiss. Um repórter tenta extrair palavras de um familiar da vítima no enterro, numa exploração abjeta da dor alheia.
Clap, clap, clap. De pé.
Latuff deu voz a milhões de brasileiros que somaram à tristeza pelas centenas de mortes a indignação pela atitude de jornalistas que não respeitam a dor alheia e simulam, como canastrões, uma dor que não sentem.
O lado B veio com Chico Caruso, no Globo. Ele fez uma prisão em chamas, na qual ardem as pessoas ali dentro e da qual se exala uma fumaça sinistra. Dilma, sempre Dilma, observa de longe e exclama: “Santa Maria!”
Era para rir? Os leitores acharam que não. Mas viria uma segunda etapa. Numa decisão estapafurdiamente incompreensível, Ricardo Noblat republicou a charge em seu blogue com o acréscimo da palavra “humor”.
 
Latuff captou o comportamento abjeto da imprensa
A reação nas redes sociais foi imediata. Caruso e Noblat foram simplesmente triturados. No próprio blogue de Noblat, habitualmente frequentado por arquiconservadores como o próprio blogueiro, os leitores manifestaram repúdio. Um deles notou que a dupla conseguiu unir petistas e antipetistas na mesma reprovação torrencial.
Noblat defendeu Chico Caruso, e sobretudo a si próprio,  em linhas antológicas: quem não gostou da charge, foi o que ele essencialmente disse depois de uma cômica interpretação do desenho,  não a entendeu. Os leitores são burros, portanto.
Tenho para mim que parte da raiva se deve ao fato de ambos estarem fortemente identificados com a Globo. Alguma coisa da rejeição que existe em boa parte da sociedade à Globo se transmite a seus funcionários.
Mas a questão vai além. É complicado, ficou claro, fazer charge decente para as Organizações Globo. A de Latuff jamais seria publicada pelo Globo. O espesso conservadorismo da empresa acaba por ceifar a possibilidade de iconoclastia, de inconformismo de cartunistas da Globo.
Se nas colunas políticas o reacionarismo nos veículos da Globo não chega a chocar, porque é esperado, na charge aparece como um estigma. De artistas se espera uma atitude diferente, mais arejada, mais provocativa.
Caruso, nos anos 1980, se destacou como um dos melhores chargistas de sua geração. Prometia mais do que entregou, é certo, mas fez uma carreira boa.
Agora, vai passar para a história como o autor da charge mais repudiada e mais infame da mídia brasileira em muitos anos —  em parte por um mau momento, em parte por carregar no peito o crachá das Organizações Globo.
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Paulo Nogueira é jornalista e está vivendo em Londres. Antes de migrar para o jornalismo digital e dirigir o site Diário do Centro do Mundo foi editor assistente da Veja, editor da Veja São Paulo, diretor de redação da Exame, diretor superintendente da Editora Abril e diretor editorial da Editora Globo.
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