segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Lula, o desrespeito e a esperança

O tal do brasileiro é uma raça desgraçada. A internet democratizou a ignorância.

Assim como um mais um é igual a dois, estava na cara que não demoraria até que o câncer na laringe do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pusesse em ebulição uma das raças mais nefastas dos tempos atuais: o internauta com diarreia verbal crônica. O instinto cafajeste do brasileiro encontrou nas redes sociais uma ferramenta perfeita pra disseminação de imbecilidades.

A pérola da vez pede a Lula pra ele se tratar no SUS, e não no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Isso porque, certa vez, o então mandatário brasileiro alardeou que nosso sistema de saúde pública era bom. O idiota de plantão, então, põe o teclado em riste. Maldiz aqui, distorce um pouco ali, inventa um bocado acolá e pronto. Iluminado e sob um véu que encoraja e cega, ele cria uma sentença que julga crítica, sarcástica, irônica e, sobretudo, polêmica. Sabe que, como ele, há outros milhares de imbecis no Brasil, burros e simplistas, pra servir de eco. A internet, se não desfez o mito do brasileiro solidário, nos apresentou o brasileiro rancoroso, extremista, insensível.

Decerto quem teve esta grande ideia de tripudiar em cima do drama do ex-presidente não usa o SUS. O que compartilhou, retuitou, curtiu, repercutiu também não. O crítico de poltrona, aquele que acha que vai mudar o mundo e fazer um Brasil melhor sem sequer arregaçar as mangas da vida, ignora ou desconhece a história deste pernambucano.


Lula é muito mais que uma declaração talvez equivocada sobre o SUS, bem mais que uma interpretação maldosa de quem usa uma frase fora de contexto apenas pra vomitar asneiras e desrespeitar.

Lula é o sétimo filho de uma família de oito irmãos que viu a morte de perto desde cedo, que passou a vida sabendo que nossa saúde estatal é deficiente, que perdeu a esposa grávida de oito meses do primogênito num hospital público. Mas ele não usava o conforto de um teclado de computador pra defender suas verdades.

Lula é o cara que trocou o pau de arara pelo carro presidencial. É o homem que foi oprimido, reprimido, humilhado, trapaceado, que assumiu a presidência bradando o sonho de erradicar a pobreza. É o líder que quebrou paradigmas, que fez o PIB crescer quase o dobro de seu antecessor, que reduziu a taxa de desemprego quase à metade do governo anterior, que se desgarrou do FMI, que distribuiu a renda, que criou 11 universidades federais, que olhou no olho do pobre como nunca na história deste país um presidente tinha olhado.

Lula é muito mais que os erros de sua gestão, que a sujeira com que se deparou em seu governo, que a desilusão de alguns partidários, que o maniqueísmo tolo de quem continua vendo política sobre o anacronismo de direita e esquerda.

Lula é muito mais que um câncer na laringe.

Wagner Sarmento - Jornalista, historiador e boleiro.
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