terça-feira, 26 de abril de 2011

Miguel Nicolelis – O homem dos sonhos impossíveis

http://jornaldecaruaru.wordpress.com/2011/04/16/miguel-nicolelis-%E2%80%93-o-homem-dos-sonhos-impossiveis/

por Ricardo Kotscho


Várias vezes candidato ao Prêmio Nobel de Medicina, neurocientista brasileiro mais conhecido no exterior, o palmeirense Miguel Nicolelis, 50 anos, mostra para a reportagem de Brasileiros as obras da Cidade do Cérebro, um centro de ensino, de saúde e pesquisa de ponta, com 100 mil hectares, que ele está implantando em Macaíba, no Rio Grande do Norte. Ele revela que está perto de vencer seu maior desafio: fazer um paraplégico voltar a andar, movido por uma veste robótica comandada pelo cérebro. Se tudo der certo, um menino brasileiro que era quadriplégico até recentemente vai subir andando o túnel do Maracanã, junto com a Seleção Brasileira, para dar o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014, usando a atividade do cérebro para controlar a veste robótica. Como isso é possível?

Quatro dias antes da nossa conversa, Nicolelis estava nos EUA apresentando os novos resultados das sua pesquisas sobre a interação cérebro-máquina na Associação Americana para Avanço da Ciência. “Nós fizemos um macaco controlar um corpo virtual, que explorava um mundo virtual, tocava objetos e mandava informações de volta, direto para seu cérebro. Ou seja, nós expandimos o corpo desse animal para o mundo virtual. O coroamento dessa idéia é fazer o ser humano andar novamente”. A veste robótica já está sendo produzida em um laboratório em Munique, na Alemanha. Lembra uniforme de astronauta, com sensores espalhados pela roupa. “A pessoa tem a sensação de estar em um novo corpo. Então, é a libertação do cérebro, do corpo biológico e a incorporação de um cérebro biônico”. Na entrevista seguinte, o maravilhoso mundo novo da ciência que Miguel Nicolelis resume no título do seu último livro, com lançamento no Brasil previsto para junho, pela editora Companhia das Letras: Muito Além do Nosso Eu.

Às nove horas da manhã, pontualmente, como estava combinado, chegamos ao final da Avenida da Esperança, no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Macaíba, a meia hora de Natal, para dar início à nossa romaria pelas obras e instalação da Cidade do Cérebro. De roupa esporte, protegido do sol nordestino pelo indefectível boné do Palmeiras (até o uniforme dos operários é verde), já a mil por hora, Miguel Nicolelis desce do carro e, de braços abertos, nos mostra a utopia do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra se tornando realidade.

“Esta é a nossa Brasília científica! Sou o homem dos sonhos impossíveis...”, diverte-se Nicolelis, ao ver de perto que a maquete eletrônica apresentada em Natal, durante um simpósio de Neurociência, em 2004, virou um imenso canteiro de obras, onde 220 operários trabalham dia e noite para entregar tudo pronto no próximo ano. São sete prédios, com 14 mil m2 de área construída, 45 laboratórios de pesquisa, centro de saúde, berçário e salas de aula para até cinco mil alunos. O objetivo é oferecer no mesmo espaço todos os recursos de ensino, pesquisa e saúde, do nascimento à universidade, dentro do programa Educação Toda Vida. Nos ensinos fundamental e médio, os alunos terão um período de acordo com o currículo regular do MEC e outro só de educação científica.

“Não adianta sonhar com sonho pequeno. É melhor sonhar grande, porque o tempo é o mesmo e o resultado muito melhor”, foi essa a lição que o cientista aprendeu com a avó Lygia Maria Laporta, que dará nome à escola. Enquanto caminha pelo canteiro de obras, Nicolelis conta que todos os projetos são do arquiteto brasiliense José Galbinski, recomendado por Oscar Niemeyer. Os prédios são construídos em formato de jangada e as janelas lembram velas. “Se tudo der certo, aqui vai ser...”, repete várias vezes o cientista sonhador, que nunca se dá por vencido. “Se faltarem recursos, passo o chapéu até para pinguim... O impossível é só o factível que ninguém teve tempo suficiente para realizar”. As obras demoraram a sair do chão; começaram há apenas seis meses, mas agora estão em ritmo acelerado. Brotaram no meio do nada em uma área de transição da Mata Atlântica para a caatinga. Em quase duas horas de entrevista, Nicolelis se lembra de como foi para em Macaíba, conta a história da Cidade do Cérebro e fala de seus planos para o futuro.

Brasileiros: Qual é a receita para se tornar um cientista como Miguel Nicolelis, considerado um dos 20 pesquisadores mais importantes do planeta, tendo nascido em um país chamado Brasil? Família, amigos, escola, sonhos, sorte, ousadia. Como foi que vc chegou a candidato ao Prêmio Nobel e qual foi o pulo do gato?

Miguel Nicolelis: Eu acho que é uma combinação de tudo isso. É esse jeito brasileiro de fazer ciência, um jeito diferente, que nos EUA não era conhecido. Quando eu cheguei lá, mais de 20 anos atrás, com essa maneira nova de abordar as ideias com os meus orientadores, e depois com os meus alunos, nós criamos uma escola de fazer Neurociência bem diferente da média que existia, do padrão, da estratégia que havia. Eu devo isso aos jogos de futebol na várzea em Moema, aos passeios de bicicleta no Ibirapuera, aos professores brasileiros que eu tive. Essa coisa de improvisar, de nunca parar diante de um obstáculo. Porque, lá nos EUA, os professores americanos tinham alguma coisa que era assim: precisava comprar um novo equipamento, parava; até chegar o equipamento, não fazia. E aqui a gente não parava só porque não tinha o equipamento ou não tinha o dinheiro para conseguir o equipamento. É uma coisa de paixão. A partir de certo nível, você só alcança resultados quando tem um envolvimento obsessivo, uma paixão obsessiva por aquilo que faz, é algo maior que a vida.

B: Você pode dar um exemplo deste “jeito brasileiro de fazer ciência”?

MN: Eu chegava ao laboratório e sabia reciclar seringa de um jeito que ninguém sabia. O meu orientador americano ficou besta porque comecei a salvar milhares de dólares para ele. O sujeito então me entregou um laboratório na mão. Na América é assim, você chega e o chefe te dá um laboratório: “É seu, a Ferrari é sua”. Quando abri a porta daquilo que o cara tinha me dado, eu passei a morar lá dentro. Ninguém me via. Nem sei como tive três filhos... E quando eu saí de lá, três anos depois, junto com John Chapin, um grande cara, que foi meu orientador pós-doutorado, de uma consciência medonha, o meu nome já era respeitado na academia. Foi o meu grande chefe lá. O mecânico do Santos Dumont se chamava Albert Chapin, que é da família do John. Não é brincadeira? Quando nós descobrimos isso, eu e o John nos tornamos irmãos.

B: Antes de John Chapin, você teve grande influência de outra pessoa, a tua avó materna Lygia Laporta. Conta essa história.

MN: Eu estudava de manhã na escola pública e, à tarde, no quintal da dona Lygia ou na varanda do escritório dela. No segundo andar do sobrado, tinha uma varandinha e ela punha uma rede, que dizia que era a única genuinamente tapuia de Moema. Era uma mulher fenomenal, foi ela quem me ensinou o realismo mágico da vida. Aprendi tudo com a minha avó – ópera, matemática, história do Brasil. E aprendi a ter esses sonhos. Foi ela que me preparou para ser um outro tipo de pessoa.

B: O que a tua avó fazia na vida?

MN: Era educadora, professora formada pela Caetano de Campos. Mas foi funcionária pública de carreira, a vida toda na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Quando se aposentou, nos anos 1960, foi morar em Moema e, segundo ela mesma dizia, abriu uma escola de um aluno só, que era eu. Foi demais. A gente viajava pela Amazônia no quintal dela, tinha samambaias, bichos. Por isso que sou fissurado pela Amazônia.

B: Dando um salto no tempo, por que estamos hoje conversando aqui em Macaíba, no Rio Grande do Norte? Como foi tornar realidade teu sonho de unir ciência de ponta com um projeto de desenvolvimento social em uma das regiões mais pobres do País?

MN: Isso tem muito a ver com dona Lygia. Vim para Macaíba com essa ideia de demonstrar para as pessoas que a utopia é possível, não importa quanto sejam adversas as condições. Quando viajei para o Nordeste, procurando um lugar para instalar o projeto, cheguei à conclusão de que esse modelo de ciência como agente de transformação social deveria ser implantado onde ninguém imaginaria que fosse possível. Tinha de ser em um lugar onde tivesse um efeito muito grande. Não adiantava ir para Salvador, porque você iria estar no meio de um caldeirão de problemas, e o seu efeito seria mínimo. Aqui, em Macaíba, onde vivem 60 e poucos mil habitantes, os problemas sociais são evidentes, mas têm soluções muito simples, muito diretas, e você pode gerar políticas públicas.

B: Vamos começar pelo começo, Nicolelis. Quando, onde e como surgiu a ideia de trazer para o Nordeste brasileiro tuas bem-sucedidas experiências na pesquisa científica nos EUA?

MN: Esse projeto, na verdade, quando ouvi o discurso do presidente Lula na noite da vitória da eleição de 2002. O professor Sidarta Ribeiro, que era meu aluno, e eu conseguimos assistir à transmissão da televisão brasileira em Chapel Hill, na Carolina do Norte. Eu tinha trabalhado nas campanhas do Lula desde 1982. Sofri com a eleição de 1989 para presidente porque fui embora do Brasil naquele ano. O Lula falou no discurso que era chegado o momento de construir um grande País. Não era uma conquista do poder pelo poder, mas o começo de um projeto de nação. Todo mundo chorou que nem criança na minha casa. Mesmo os meus filhos americanos, que não tinham nenhuma ideia do que era aquilo, ficaram emocionados.

B: Naquela mesma noite você decidiu voltar?

MN: Decidi voltar para o Brasil, e decidi que a ciência tinha de fazer alguma coisa pelo nosso projeto de nação. Aí, a gente começou essa guerrilha, em março de 2003.

B: O que o senhor ouviu das pessoas quando começou a mostrar o projeto naquele ano? Como conseguiu os recursos necessários?

MN: Na realidade, eu ouvi coisas muito contraditórias. Achei que ia chegar aqui no Brasil e todo mundo iria vibrar. O pessoal ia falar: “Putz, que maravilha!, vamos fazer, vamos tentar”. Mas não foi bem assim. Meu primeiro encontro com o presidente Lula foi muito emocionante. Foi uma reação muito boa, muito emocional, muito legal. Tinha escrito uma carta para ele. Um dia, no meu laboratório, a minha secretária vem e fala assim: “Olha, tem um trote do Brasil, um cara falando que é do palácio do Presidente da República. Vou desligar o telefone”. Eu falei: “Não desliga, não, vai ver que é verdade”. Era o pessoal do presidente querendo marcar um encontro. A reação das outras pessoas ao projeto foi muito misturada. Por exemplo, os acadêmicos do Sul e Sudeste do Brasil tiveram uma reação muito negativa, achando que isso não podia dar certo, que iria dividir as verbas para pesquisa no país. São Paulo e Rio concentram 70% da produção científica brasileira. Para muita gente, é ótimo ter um núcleo de excelência no sul-sudeste do Brasil. Mas, na minha filosofia, a inclusão de largos setores marginalizados da sociedade brasileira também passa pela distribuição dos meios de geração de conhecimento de ponta por todo o Brasil. O pessoal de São Paulo reclama que o CNPq só dá 30% do orçamento para São Paulo. Quer 50%. Mas e o resto do Brasil? Você tem de dar oportunidades a todos para gerar conhecimentos. Ninguém acredita em si, cria autoestima e cidadania, se não gera algo novo. Então foi uma reação muito difícil no começo, que durou por muito tempo.

B: Como você conseguiu mudar isso?

MN: À medida que a minha ciência foi explodindo e sendo reconhecido no mundo, as pessoas viram que eu não estava brincando. As coisas foram aparecendo, as construções, as escolas, os laboratórios, o centro de saúde. A mudança veio de fora para dentro. Quando a revista Scientific American publicou uma reportagem de capa, dizendo que o nosso projeto era um dos melhores modelos de ciência para o desenvolvimento do terceiro mundo, as coisas começaram a melhorar. Em 120 anos, foi a primeira vez que a revista publicou uma carta de um Presidente da República. O presidente Lula, o ministro da Educação, Fernando Haddad e eu assinamos uma carta dizendo que esse projeto era paradigma para um currículo de educação científica que beneficiará um milhão de crianças. Isso saiu como editorial da Scientific American, mas não foi publicado em lugar nenhum no Brasil. Saiu em todo lugar, saiu no México, saiu na Europa, foi um choque. De repente, tinha um projeto em Macaíba que era notícia no mundo inteiro, menos aqui.

B: Quem você conseguiu convencer primeiro aqui no Brasil de que a ideia era boa?

MN: Primeiro foi o Lula, em 2003, 2004. Depois, eu convenci gente muito querida, como o Isaac Roitman, que é um cientista brasileiro famosíssimo. Eu o chamo de general Roitman. Nós criamos a “Coluna Roitman”, que era uma espécie de Coluna Prestes da ciência. Hoje, ele é aposentado, mas foi um dos grandes microbiologistas do Brasil. Quando trabalhava como secretário do Ministério da Ciência e Tecnologia, ele ouviu falar do projeto e me convidou para falar com o Roberto Amaral, que foi o primeiro ministro do setor e me tratou muito bem. Comecei a conseguir verbas iniciais do governo federal e recurso privados porque a minha promessa era a seguinte: para cada real que o governo brasileiro pusesse no projeto, eu sairia pelo mundo para conseguir pelo menos mais um real no exterior. Comecei a fazer contatos com brasileiros que moravam fora do País. Em 2005, quando eu me encontrei com a senhora Lily Safra, o projeto já existia, o instituto já existia.


B: Como vc chegou a ela?

MN: Foi uma coisa louca. Eu recebi um telefonema, na Suíça, de um amigo em comum, um verdadeiro irmão israelense chamado Hidan Segueve, que falou do projeto para a senhora Safra. Um dia ela me liga, bem na hora em que eu estava descendo de um trem em Genebra. Ao ouvir o nome dela, tropecei no degrau do vagão, caí, rasguei minha calça. Sentei em um banco porque estava achando que era trote, e era ela. Fui convidado para visitá-la na sua casa em Londres. Dois dias depois, eu estava na casa dela apresentando o nosso projeto. Aí começou a pegar no breu. Por questões contratuais, eu não posso falar em valores, mas foi a maior doação privada da história da ciência brasileira até hoje.

B: O senhor se lembra de alguma história emblemática desse início de implantação do projeto, algo que lhe deu a certeza de que estava no caminho certo e não poderia desistir?

MN: Quando a gente abriu a primeira escola em março de 2007, em Natal, nós trouxemos os maiores neurocientistas do mundo para conhecer o trabalho, veio até um prêmio Nobel. Uma menininha de Cidade da Esperança, que é o bairro onde fica a escola, me pegou no braço quando eu entrei na escola, e falou: “O senhor promete uma coisa para mim?”. Perguntei o que era e ela respondeu: “O senhor não vai embora daqui nunca, não é?”. Prometi para ela que nunca iria embora daqui. Os cientistas americanos olharam para mim e pediram para eu traduzir o que a menina tinha falado. Esses caras são gente de casca dura, mas não teve um que não marejou os olhos.

B: Nem você...

MN: Eu chorei que nem criança. Essa menina está hoje no ensino médio. A vida dela mudou e ela mudou a minha vida. Aliás, todas essas coisas que aconteceram aqui mudaram a minha vida.

B: Por que o senhor e seu trabalho de pesquisador são mais conhecidos e reconhecidos no exterior que no Brasil? Isso está começando a mudar? O senhor sente que estamos em uma encruzilhada entre o subdesenvolvimento científico com a crônica falta de recursos para investimentos em pesquisas, e no limiar de um salto para transformar o Brasil em potência nessa área?

MN: Eu acho que essa realidade mudou muito nos últimos anos. O meu trabalho específico é mais conhecido fora do Brasil, sem dúvida nenhuma. Mas eu te dou um exemplo de como as coisas estão mudando. Ontem, eu estava esperando o avião no aeroporto de Guarulhos, depois daquela odisseia de cruzar a marginal Tietê, no meio da enchente, para chegar lá. Estava de terno, lendo um livro e comendo pão de queijo, quando aparece um cara e me pega no braço: “O senhor não é o neurocientista Nicolelis?”. Respondi que sim, era eu mesmo, e aí ele falou: “Eu sei que o senhor é palmeirense e eu sou corintiano...Apesar disso, queria dizer que gosto muito do trabalho que o senhor faz. Tenho um familiar parkinsoniano...”Nunca imaginei no Brasil que eu estaria em um lugar público e um cara me abordaria para falar de sua esperança na cura da doença de Parkinson. Meu avô Ângelo Nicolelis, marido da avó Antonieta, que era a mãe do meu pai, morreu após uma queda provocada por Parkinson. Descobrir a cura dessa doença é algo muito importante para mim, tenho uma ligação muito profunda com essa doença.

B: Em suas pesquisas com macacos, o senhor já provou que o cérebro pode mover braços mecânicos. É aquela velha história da força do pensamento, finalmente colocada em prática. Em que pé estão nesse momento as pesquisas aplicadas ao cérebro humano? Cite alguns exemplos concretos de como essas pesquisas já beneficiaram a vida de pessoas com deficiências neurológicas.

MN: Nós estamos, no momento, em uma bifurcação muito importante da neurociência, que vai deixar de ser só uma coisa para fazer diagnóstico. Os neurologistas, durante muito tempo, faziam o diagnóstico e não tinham como intervir. Nós estamos começando a mudar de patamar, ou seja, nós vamos começar a ter terapias para doenças que a gente diagnostica tão rotineiramente. Por exemplo, a doença de Parkinson. Antigamente, você só tinha medicamentos. Aí, foi inventada uma cirurgia para doença de Parkinson que aliviou o problema, melhorou a qualidade de vida e aumentou a sobrevida dos pacientes, no sentido de evitar certos acidentes, como aconteceu com meu avô, que morreu em consequência da doença. Se já existisse essa cirurgia, provavelmente não teria falecido. Agora, nós temos uma nova cirurgia, que é semi-invasiva, sem necessidade de abrir o cérebro do paciente. Vai ser feita na medula espinhal, e isso vai reduzir o custo, que atualmente é de centenas de milhares de dólares, para US$ 1.000, ou seja, vai beneficiar muito mais gente, cerca de 20 milhões de pessoas no mundo todo. É uma cirurgia que você pode fazer desde o diagnóstico da doença.

B: Quais são os próximos passos nessas pesquisas que possam dar um novo alento a quem convive com doença cerebrais?

MN: O que nós estamos estudando nesse momento é se essa cirurgia vai ampliar a sobrevida e reduzir o processo degenerativo. A neurociência está começando a fazer agora o que a cardiologia fez nos anos 50. Está começando realmente a permitir que você conviva com uma doença neurológica de maneira produtiva e que possa manter a sua qualidade de vida. Porque esse é o grande drama: hoje em dia você convive muito mal com as doenças. Paralisia, por exemplo, é uma coisa devastadora; derrame é uma coisa devastadora. Nosso trabalho consiste em tentar usar o que sobrou do sistema nervoso, que está saudável, para substituir as funções que foram perdidas. Essa vai ser, na minha opinião, uma grande revolução nos próximos 20 anos.

B: Como o senhor divide o seu tempo, vivendo na ponte aérea entre três países – Brasil, EUA e Suíça – onde desenvolve suas pesquisas?

MN: Em média, passo 70% do meu tempo non exterior e 30% no Brasil. Além do trabalho de pesquisa e ensino que desenvolvo há mais de 20 anos no Departamento de Neurociência da Universidade Duke, em Chapel Hill, na Carolina do Norte, sou professor-adjunto também na Escola Politécnica de Lausanne, na Suíça. Vivo nesse triângulo. Dois dos meus filhos estudam nos Estados Unidos e um está aqui no Brasil.

B: Tem algum já seguindo teus passos na área científica?

MN: Não, é tudo diferente. O meu filho do meio vai ser advogado, voltado à biotecnologia, que é uma coisa nova que tem lá nos EUA. O mais novo vai trabalhar com computação gráfica, criar desenhos animados, coisas assim. E o mais velho é um cara mais da área de humanas. Pensou em seguir jornalismo, mas já desistiu.

B: Se tivesse de escolher entre ganhar na mega-sena, encontrar todas as obras da Cidade do Cérebro construídas, e ver seu Palmeiras campeão, o que o senhor escolheria?

MN: Todas as obras construídas. O Palmeiras já foi muito campeão...(risos)

B: E o senhor nunca acertou a mega-sena?

MN: Na mega-sena não tenho a mínima chance. Eu não jogo, fica difícil... Este era outro ditado da dona Lygia: “Nunca deixe para o infortúnio aquilo que você tem de fazer com suas próprias mãos”. Estou pensando em criar um blog e o nome vai ser Histórias de Dona Lygia.

B: Se o senhor estivesse no lugar do Aloizio Mercadante, qual seria a sua prioridade zero no Ministério da Ciência e Tecnologia?

MN: A minha prioridade zero seria massificar o ensino de ciências pelo Brasil para toda a criançada querer fazer ciência, que nem jogar bola, que é a única esperança que nós temos. E desburocratizar os processos de produção e disseminação de conhecimento de ponta no Brasil. Se fizesse essas duas coisas, o Brasil mudaria da água para o vinho, da noite para o dia.

B: O que já está confirmado em termos de recursos nacionais e estrangeiros, públicos e privados? Qual o total de recursos necessários e quanto já foi investido no instituto?

MN: O nosso maior parceiro é o Governo Federal, o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Ministério da Educação e, de forma bem menor, o Ministério da Saúde, com ações que se iniciaram em 2003. Nós arrecadamos recursos não só para o nosso instituto, mas também para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O Instituto Internacional de Neurociências trabalhou para arrecadar 50 milhões de reais para a Universidade Federal, investidos nas obras de construção da Cidade do Cérebro. É uma parceria estratégica vital para a implantação do projeto. No total, nós já garantimos recursos da ordem de 120 milhões de reais, metade dinheiro público e metade privado, como prometi ao ex-presidente Lula.

B: E quanto falta?

MN: Falta muito dinheiro. O projeto completo está orçado em dois bilhões de reais. É o maior projeto científico com capital público e privado do Brasil, um dos maiores do mundo nesse momento. Se depender de nós, isso daqui ainda vai ser a capital científica do mundo.

B: Qual a participação dos governos locais?

MN: Muito pequena. A prefeitura de Macaíba ajudou com transporte e repassa recursos do SUS, o governo do Estado fez essa estrada de acesso à Cidade e a ponte foi construída pela Petrobras, mas o Governo Federal é o maior parceiro, sem dúvida. E eu ouso dizer, porque não posso afirmar categoricamente, mas em tudo tem o dedo do ex-presidente Lula depois do nosso encontro em 2003. Ele me deu um abraço e falou: “Vai lá e faz que estarei aqui acompanhando. Mostra pra mim que isso é viável”. Foi o Frei Betto quem me apresentou ao presidente. O Isaac Roitman escreveu um e-mail para Frei Betto, que falou do projeto para o Lula e pediu para me receber. Foi muito emocionante. Para mim ele é um grande herói.

B: O senhor foi recentemente convidado pelo Ministro Aloizio Mercadante para presidir uma comissão do MCT, que discutirá o futuro da ciência no Brasil. Em que áreas o Brasil deve centrar os seus recursos para pesquisas?

MN: : Eu escrevi, em novembro do ano passado, o Manifesto da Ciência Tropical. São 15 metas para a ciência brasileira, mas só a imprensa internacional publicou o manifesto. A coisa fundamental desse documento, a primeira meta é a disseminação da educação científica por todo ensino público brasileiro nos moldes do projeto de Natal e Macaíba. Nosso objetivo é levar a um milhão de crianças, nos próximos quatro anos, o currículo de educação científica que nós temos aqui. E fazer com que o País seja o líder da ciência tropical, que abrange cinco áreas vitais para o futuro da humanidade, não é só para o futuro do Brasil, não. São elas: energia renovável, alimentação, clima, recursos hídricos e biodiversidade. Ou seja, tudo o que é fundamental para a vida. Seu eu tivesse a possibilidade de definir uma visão estratégica, essas áreas teriam de ser contempladas.

B: Como vai funcionar essa comissão?

MN: Vai ser muito diferente de qualquer comissão jamais formada. Primeiro, metade da comissão é formada por mulheres, já para começar, porque nas anteriores não tinha nenhuma mulher, zero. Essas mulheres não são só pesquisadoras tradicionais. Tem educadora, ambientalista, tem jornalista, a Marilu Moura. Entre os pesquisadores, fui atrás dos jovens, dos caras brilhantes que nós temos no Brasil e estão escondidos. Tirei todas as figurinhas marcadas, não tem nenhum cartola. E tem um decano da ciência brasileira, que é um dos maiores cientistas que o Brasil já teve, o Victor Nussenzweig. O Vitor e a mulher dele, a Ruth, são dois dos melhores especialistas em doenças infecciosas do mundo. Trabalham com malária, dengue. Os dois estão na Universidade Estadual de Nova York desde a década de 1960.

B: Tem algum novo Miguel Nicolelis entre os 18 jovens da periferia de Natal que fizeram o curso de Educação Científica e passaram a ser estagiários do Instituto de Neurociência no programa Cientistas do Futuro?

MN: Tem, sim, provavelmente muito melhor do que eu.

B: Quem, por exemplo?

MN: Eu não vou te dar o nome porque não quero. Entre todos esses meninos lá da escola que vocês visitaram, não só os 18 do programa Cientistas do Futuro, existem futuros Niemeyer, futuros Santos Dumont, Caetano Veloso. Eu não me coloco nem próximo desses caras, mas tem heróis nacionais lá. Quando aquelas crianças entraram na escola, elas queriam ser artistas da Globo, modelo, manequim, ator. Hoje, querem ser geólogos, astrônomos, professores, físicos. Teve um menino que chegou pra mim e perguntou: “O senhor acha que tenho algum problemas? É que eu quero ser paleontobiólogo”. Paleontobiólogo é o cara que estuda Biologia, a história dos antepassados, dos animais, dos fósseis, a biologia dos animais extintos. Falei que não tinha problema nenhum. Encontrei um menino que tinha sido atropelado por um caminhão. Isso foi na época que o negócio da Bolsa-Família começou a explodir, que o sertão comecou a mudar, era o sertão com casas pintadas, motos nas ruas, adutoras, antenas parabólicas, cisternas. Cheguei para esse menino acidentado e perguntei o que ele queria ser quando crescesse. Ele olhou para mim e não teve dúvidas: “cirurgião ortopédico”. Perguntei por que: “é que eu já tenho treinamento básico, doutor. Eu fui atropelado por um caminhão, passei um ano no hospital com o meu fêmur quebrado. O que eu vi de raios X de osso, já sei tudo...”

B: Em recente reportagem da revista americana Science, o senhor falou em uma “maneira tropical emergente de fazer ciência”, movida pela pesquisa e energia renovável, agricultura, água e genética animal e vegetal. E concluiu “estas são as questões definidoras do planeta e, acreditem ou não, os players estão bem aqui”. Quem são esses players?

MN: São vários, a começar pelo talento humano específico. Nós temos a maior matriz energética renovável do mundo, 47%. Isso não existe em país nenhum. A média mundial é de 8%, 12% no melhor dos casos. Nós temos 47% e podemos ser o único país do mundo capaz de substituir a gasolina dos carros completamente. Os nossos players são as pessoas, a ingenuidade brasileira, o poder de criatividade, o poder de transformação e o desejo de inovar. Dizem que o Brasil não tem inovação. Pode não ter inovação no estilo americano, não tem inovação para ganhar dinheiro como a gente conhece lá. Mas e o cara que sobrevive numa favela de Heliópolis, no Complexo do Alemão ou no sertão nordestino? O sertão é a expressão mais sublime da sobrevivência. O ser humano que mora lá é o exemplo mais puro da seleção natural da vida, o sertão é vida.

B: Como estão se sentindo os pesquisadores estrangeiros que o senhor trouxe para trabalhar aqui? Do que eles mais gostam e do que eles se queixam? Tem mais gente querendo vir trabalhar aqui ou gente desistindo? Quantos pesquisadores já vieram de fora?

MN: Já vieram 12, e tem mais 12 vindo. E não é fácil. Não vamos dourar a pílula não, porque é muito difícil. Não é fácil convencer um bom profissional a vir para cá e, quando o pessoal chega aqui, o tranco é duro. Eles vêm de lugares onde tudo é estruturado, tudo é planejado. Você sabe quanto dinheiro vai ter, sabe as regras do jogo, não é avaliado por índice gravimétrico. Porque aqui a avaliação da produção na qualidade científica é por peso. Você pega o currículo e põe na balança, porque é tudo medido por número de trabalhos. Ninguém nos EUA me pergunta quantos trabalhos publiquei, ninguém pede meu currículo Lates, o meu índice. Porque não é essa a moeda de troca da ciência. Pelos nosso critérios de avaliação, o Einstein não seria cientista. Nós temos um sitema de ranking de cientistas que não existe em lugar nenhum do mundo. Você só consegue financiamento para uma pesquisa se for cientista 1A, que é classificação alta, é uma casta. É um número muito pequeno que consegue receber subsídio do governo, bolsa salarial. Nos EUA, eu me sento à mesa de avaliação de projetos junto com um moleque que acabou de virar professor. Não tem classificação de bom, muito bom, gostosão.

B: Vale o projeto...

MN: Vale a ideia, vale a cabeça do cara. O moleque que tem 35 anos pode chegar para mim e falar: “Você está full-check (ultrapassado), sua ideia é uma merda”.

B: Que argumentos vc usa para convencer os estrangeiros a vir trabalhar no instituto no Rio Grande do Norte?

MN: Eu digo para eles que o velho primeiro mundo faliu, e o primeiro mundo agora é aqui. Se eles olharem bem, vai ser aqui o futuro do mundo. A utopia só se constrói aqui.

B: Quais são os maiores obstáculos para transformamos essa utopia em realidade?

MN: Deve haver um pacto nacional, uma decisão política, uma opção pela excelência e pela construção de uma democracia tropical verdadeira, plena, que não existe em lugar nenhum do mundo. O modelo democrático representativo que a gente conhece, que vem lá dos americanos, da revolução americana, morreu. Isso é notório em todo mundo. O que estamos vivendo no Oriente Médio é uma explosão da primeira bolha, que vai estourar no mundo inteiro. Quem vai nos salvar, eu gosto de falar isso, é a teia, a net, é a rede. Falei isso outro dia aqui em um simpósio dos blogueiros de Natal. Hoje, nós vivemos um momento em que todo ser humano é notícia e todo ser humano é repórter, todo ser humano pode contar uma história. É emissor e receptor de conhecimento. Não existem mais os formadores de opinião de antigamente. Quando eu era criança, o meu pai lia a Folha de São Paulo e para ele o que o colunista da página 2 escrevia era a verdade. Hoje, a verdade não está mais lá. A verdade é um espectro de opiniões que vem lá de onde a notícia é gerada. Eu olho para isso como um movimento político. É como funciona o cérebro – uma democracia auto-organizativa, que se movimenta por conta própria. Não tem ninguém dizendo: “Faça isso!”. O que nós estamos vendo é a expressão tecnológica de como nosso cérebro funciona. O sistema político de governança que vai emergir disso é exatamente o sistema que o cérebro usa para gerar todos os nossos comportamentos. É uma distribuição natural, ninguém controla ninguém, um processo catalítico em que a solução ótima emerge. É o resultado da rede, assim como neurônio nenhum manda no seu cérebro. Vou falar sobre isso no Simpósio Nobel marcado para Estocolmo, agora em maio.

B: Explica melhor que simpósio é esse e o que o senhor vai fazer lá, uma vez que seu nome vem sendo cogitado para o Prêmio Nobel já faz alguns anos.

MN: É o primeiro simpósio multidisciplinar da Fundação Nobel que vai cruzar três comitês: física, química e medicina. Os 20 principais neurocientistas do mundo foram convidados a participar desse novo simpósio, um evento científico criado há mais de 100 anos. E ali agora cada participante tem de escolher um tópico para falar. Escolhi a interface cérebro-máquina, que é a área que criei há 12 anos e à qual me dedico até hoje. Eles me convidaram para abrir o Simpósio. Só para terminar aquela ideia da rede social: sinto que está surgindo um movimento político no mundo todo. Ou seja, se Bertrand Russel estivesse vivo hoje, ele teria encontrado a ferramenta que disse faltar para poder gerir uma governança global.

B: No ano passado, esse Centro de Saúde onde estamos conversando dez mais de 15 mil atendimentos. O modelo de atendimento adotado aqui pode ser exportado para outras regiões do país?

MN: Exatamente, é o que nós temos conversado com o Governo Federal e Governos Estaduais. Já foi para a Bahia, onde funciona muito bem. A escola de Serrinha é uma escola igual às que vocês viram aqui. Mas o que eu propus para o governador da Bahia e para a governadora aqui do Rio Grande do Norte, e que eu quero propor para o Ministro da Educação e da Saúde, é juntar os centros de saúde com as escolas e levar para as cidades do interior, acoplando os dois na mesma estrutura. Precisamos apostar na mulher, apostar na saúde da mulher e da criança, e na educação da criança. Agora que nós sabemos que funciona, a ideia é espalhar o projeto pelo interior do país, e criar uma rede orgânica autoadaptativa. Nós projetamos a dinâmica do cérebro para as nossas relações sociais. A internet nada mais é do que a implementação digital do algoritmo de funcionamento neural.

B: Aos 50 anos, que acaba de completar, qual é o seu projeto de vida? O que falta fazer e descobrir?

MN: Falta acabar de fazer o que o presidente Lula falou naquela noite de 2002: construir uma nação. E eu quero participar disso. Agora, por exemplo, estou preparando um projeto novo: Escolas sem Fronteiras. Veja que loucura: o mundo inteiro hoje está debatendo fronteiras porque o capital circula livremente, dinheiro vai pra cá, vai pra lá, mas gente, não. Então os países querem construir muros, na Europa os caras estão desenvolvendo altas tecnologias de cercas elétricas, os EUA abrem fossos nas fronteiras. Só não podem cortar a internet, é uma loucura, nem adianta chamar polícia nem forças armadas. Eu fiquei em um jeito brasileiro de ocupar as fronteiras, criando pontes de educação. Já até escolhi 11, 12 cidades fronteiriças do Oiapoque ao Chuí. Oiapoque até está na lista. É colocar ali escolas bilíngues, que vc pega metade dos alunos daqui e a outra metade do país que faz fronteira com o Brasil, e vc usa a ciência para unir os dois lados. A história da cultura da América Latina servirá como um dos pilares pedagógicos do projeto. Nós não vamos ter problema na fronteira nunca mais porque vc vai criar uma irmandade, vc vai criar uma verdadeira irmandade sul-americana. Entreguei o projeto para o Ministro Aloizio Mercadante e ele disse que já falou com a presidenta Dilma, que aprovou a implantação de três escolas pioneiras.
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